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Editorial

A poesia quando reunida com a música torna-se irresistível. Tenho acompanhado a carreira poética/musical de Pierina Balarini. E gostaria de partilhar seus sons e palavras. Este pequeno texto fala  do Projeto Aurora....”as letras em maiúsculo são os nomes das músicas do CD”, quem quiser saber do CD pode ouvir alguma coisa no www.myspace.com/projetoaurora. E muita poesia sempre, que é o que nos salva no meio do caos, particular ou coletivo. Continuamos contando a história da Revista A Cigarra no http://revistacigarra.blogspot.com. Aguardamos você. Jurema Barreto de Souza & Zhô Bertholini

 

 

Projeto Aurora

“Vivemos numa SOMBRA de mundo. Onde impera o FRIO que impermeabiliza as emoções, para que você não se sinta AFOGADO. Para que não veja o quão SEM SENTIDO isso tudo está.
Porque QUANDO ACORDO AGORA me vem uma sensação louca, um revertério como quando ouço a grande FUGA de Beethoven. Então posso ver essa FOME ESFÉRICA, cíclica, alastrando-se como LAVA por nosso planeta, sedimentando-se em nossos estômagos.
Descubro-me subindo uma LADEIRA muito íngreme e apenas o canto de uma SABIÁ me lembra de olhar pro céu. ELLA ainda pode dançar. Convoca-me para uma CIRANDA DE MEL conduzida pelos beija-flores da região!
Sinto a AURORA aproximar-se e sei que DEPOIS DE MORTOS poderemos erguer-nos como a lâmina límpida e clara de um PUNHAL, que com rigor SALTA, mágico, e corta a barriga do HORIZONTE na transversal.
Este será o momento em que a passagem se abrirá, será enfim o ritual de CHAMADO DAS ALMAS.
Quando esse canto se fizer ouvir poderei descansar em paz.”

Pierina Balarini

 

 

Poemas aos Homens do nosso Tempo

I
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Hilda Hilst

 

 

CHUVA

Da janela olho a tempestade.
Os ramos pesados
da arvore abaixam ate' alcanc,ar
a grama molhada.

Um raio ilumina o ceu e a terra
diante dos meus olhos.
Quizera abrac,ar alguem
para compartilhar
a negrura triste desta noite.

TERESINKA PEREIRA

 

 

 

Saudosa África
 
 
Saudosa e majestosa mãe África.
 
Com suas relvas e selvas...
 
Atravessa a imensidão da criação.
 
Saudosa e majestosa...
 
Criadora de culturas tribais recebe teus filhos!
 
Em um desfile infinito de alegria.
 
Saudosa nação em cores e tambores!
 
Se ouvem teus clamores.
 
Saudosa criação de centenas de anos.
 
Tribos e gritos ecoam na imensidão da savana.
 
Mãe África sofreu, com a escravidão!
 
E no mesmo chão renasceu...
 
Povo criador cultura que não morre...
 
Contemporânea, moderna, querida e nunca esquecida...
 
...mãe África.
 
 
 
 
José Luiz Grando
grandojl@yahoo.com.br

 

 

 

 

ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinícius de Moraes

 

 

 

A MOÇA ATRÁS DA COR

Tudo numa cor
Quero o mundo numa cor

Não sei se me alaranja o olhar
olhar a cor
ou se me abobora o olhar
olhar a cor

A cor não se define
Não me define a cor

Corro
A cor corre
cora colore
Concorre
a cor com a cor
do coloral
Corre!

A cor não se define
Não me define a cor

Olho um céu ardido. Áspero céu
Descolorido céu do meu azul
É todo em cor no hemisfério sul
alaranjado abóbora do pôr-do-sol
Que me escurece a cor do meu cordel

A cor não se define
Não me define a cor

Olho a moça atrás da cor
Ela também é da cor da cor
A cor que a cega me cega a cor
E cegos somos nós que só coramos
que só corremos
que socorremos
quiçá curamos
a dor da cor sem cor

E é de cor que corta a cor
o meu olhar e o da moça da cor
Ela me olha a olhar a cor
colorido n'alma da mesma cor
Uma que em mim reflete abóbora
que nela reflete laranja
que na moça nem mesmo existe

A cor não se define
Não me define a cor

E nua corre a moça por trás da cor
Sem a cor, ela é somente a moça
A moça sem cor atrás da cor que me colore.

LEANDRO LUZ

 

 

 

CÉU SEM DONO
(100 tercetos)

1

tempo e espaço
de onde me ocupo
não trago cansaço

2

plena sintonia
era quando o galo
despertava o dia

3
das horas

tic- tac- tic- toque
segundos e minutos
seguem a reboque

4
não me interessa
qualquer ritmo
de quem tem pressa

5
raro cristal
pingo de chuva
caído no quintal

6
onda na praia
gesto breve e bravo
que ninguém ensaia

Zhô Bertholini

 

 

O exorcismo

Fiquei assim
possessa do teu amor:
mal que me acometeu
Sinto teus olhos de gato
brilhando na escuridão
do submundo do meu medo
de onde há de nascer
por ti outra canção.
O feitiço deste pelo negro,
que é tua sombra
roçando a escadaria

do meu sótão abandonado,
queima-me em mil fogueiras

sem que jamais do teu amor

eu seja liberta ou exorcizada.

Jurema Barreto de Souza

 

 

 

fábrica

eco da canção
(de esguelha0
no protetor
de orelha

o pé inoxidável
retalhando odores
constantes
durante o turno

uma leve sensação
de chumbo cavalga
as vértebras —
o pássaro pousa

num único lembrar
de galho de árvore  —
uma gota de suor
suspensa no óleo

reafirma uma
reação química 

 Fabiano Calixto

 

 

 

máquinas (Fábrica 2)

máquinas
vapores
produtos reagentes
peças a dezenas

(muro poroso:
tabuleiro de xadrez)

— tarde purgatório
cozido cansaço —

matemático-céu
onde nuvens inteiras
fracionam o céu

Fabiano Calixto

 

 

Último dia (fábrica 3)

                   "Rust never sleeps"
                            Neil Young

bolor ao sol
entre o maço de cigarros
e a pedra
que a sombra
toca
mas não absorve

fungos e caveira
verme-
lhos os degraus
os felizes

muro-vitiligo
(raízes que não
crescem)

o tempo não
deixou de existir

Fabiano Calixto

 

 

Areia

onde o lugar
cabe num sopro

onde cabe no rosto
um estudo de
barthes

— à primeira vista
o lodo é circunstancial —

existir
: etapa
devorada pelo pó

Fabiano Calixto

 

 

Ao princípio


as palavras perderam-se
pelo chão comum
das mitologias, ah
decerto não souberam chegar
                                        ao princípio
ao âmago
ao núcleo da água e do limo
                               (quem as visse
ante o ouvido endurecido,
já perdidas,
rogando clemência ou nacos de pão
                                        ou vinho)


mas nada, nada resta agora
                   das palavras,
sua geometria quebrou-se,
desolada.


pois que não fique pedra sobre pedra,
pois que nada ao tempo frutifique
e além do extremo recinto
reste apenas uma nau,
sozinha,
                    e um dique.

Iacyr Anderson de Freitas

 



Matéria publicada em 01/09/2009   - Edição Número 121