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Editorial

A Revista A Cigarra continua em essência, virtualmente divulgando poetas e poesia. Estamos contando nossa história no WWW.revistacigarra.blogspot.com . Estamos presentes no Orkut, Hi5, Sonico, Myspace, Conexão Talentos Br , sustentando o propósito de que em meio ao caos a poesia pode, se não resolvê-lo, ser um ponto de reflexão sobre a alma humana. Visite nossas comunidades no Orkut : “Revista Literária A Cigarra” e “Poesia é risco”, onde você pode inserir poemas no fórum. E que tudo acabe e comece em poesia.  

Jurema Barreto de Souza

 

 

beat

Não vou fazer amor
vou fazer um poema beat
vou escorrer pelo ralo
metamorfose kafkaniana borboleta barata
como o poema que não houve
como o leitor que não soube
como a besta estatelada no cartoon
vou deixar de fumar por um momento
apagando meu hálito no seu
você vai dizer que é importante
eu vou dizer que é vão
você vai pegar um vapor para Londres
eu vou sonegar meu adeus
vou escarrar num estranho a minha insatisfação
vou virar gangrena
e você vai me amputar nem que não queira
cadafalso cada passo
sigo comigo sem direção
perdôo sem esforço teus erros e meu perdão
danço um Gardel no caminito
pago ser de outro lugar
minha sombra veste preto
e num último tango se desfaz

sandra santos

 

 

a poesia

a poesia

escrita nua

no muro

faz algo

mudo

do mundo

falar

SÉRVIO TÚLIO DE M.LIMA

 

DITOS

Ignoro a lei, do mais forte
colho fraquezas. Jogo a indecisão
ao limite das escolhas e do reverso
medalho o peito: ao esteta cabe
a resolução da tinta sobre a tela.

         Estatelo o concreto
         e me abstraio
         ao recente: arranco pregos
         depositados e entrecruzo
         vidas. Desenrolo a lei
         ofertada ao amigo. Aos inimigos
         deposito moedas cunhadas
         em honra da vitória.

Pedro Du Bois

 

 

Não ter e ter tudo

Não tenho de ti o gosto
mas tuas palavras me escorrem
pelo tronco
pelo dorso
pelas coxas
pelo corpo

Não tenho de ti o tato
mas caminho no teu rastro
no teu faro
no teu mastro
quando no chão
minha sombra tem sua marca

Não tenho de ti o rosto
mas te vejo no ônibus
no colo
no solo
e nos olhos
de outros

Não tenho de ti a matéria
mas te sinto na pele
na minha cela
nas mechas
e no vértice
da minha febre

Não tenho de ti o sorriso
mas brinco contigo
te imito
arrisco
palpito
e o admiro

Não tenho de ti o rumo
mas pinto as tuas ruas
o teu prumo
teu sumo
teu suco
e teu lume

Eu não te tenho a ti
e por favor, não me apareça!
Pois não te quero perto

quero-te aqui neste deserto
para gozar-te assim
minha miragem e criação mais que perfeita.

 Letícia Mendonça
www.vestindoletras.blogspot.com

 

 

 

Muros

Um corredor imenso
Negro, escuro, extenso,
Sem fim talvez
Talvez tão perto
Mas não consigo sair dele
Corro...corro e não chego
Nem perto de lugar algum.

Do outro lado
Nem mesmo um feche de luz
Quando vejo que não tenho saída
Só me resta gritar
Mas não tenho voz.

A única coisa que vejo é o céu
No entanto, pena, não posso voar
Deus não me deu este dom
Seria tudo mais fácil.

Gostaria mesmo era de ser mais forte
Assim talvez pudesse quebrar estes muros
E viver a vida com mais luz.

Adalberto Caldas Marques.
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/adalrj79

 

 

SUA A LUA

Se a lua pousar em teu olhar, olha-a
e se ela inteira te enluarar, enlua-te
Se a maré de manhã te inundar, afoga-a
e se ela inteira te banhar, banha-te

Porque o suor da noite é cedo
e o suor do mar é doce
Não de um doce que saibamos tu e eu
mas de um doce de que só o céu sabe o sabor

Se a vida derramar-se em tuas mãos, vive-a.
e se ela inteira entregar-se a ti, bebe-a.
bebe-a e sua.

LEANDRO LUZ
www.escorpiaodesois.blogspot.com

 

 

Publicador

os dados são jogados
           juízes                        
 cavalos                     outonos            

varridos quando dizem
         narrativos         
 mais ou menos  

o que não é pra entender
no vestígio
de isento

tato, gosto, olfato
exame de graça

Edson Pielechovski

 

¿Hubo un jardín
o fue el jardín un sueño?
J. L. Borges

¿Hubo luna en nuestro sueño
o fuimos un error con dos ventanas?
(el puente de tu cuerpo se me apaga)

¿Hubo error en nuestro sueño
o fuimos las ventanas de la luna?
(el puente de mi cuerpo se te apaga)

¿Hay lunas?
¿Hay sueños?
¿O sólo error? (y sin ventanas)

Y sin embargo he sido error (tú: mi ventana)
Y eras un sueño
(yo fui tu luna en la ventana).

********************
Tú sabes que nunca tuve edad sólo latidos
para anunciar todo el rocío
que escancia tu cuerpo
sobre el último lirio del deseo
Sólo este canto que a flor de sed creciente
subraya mi destino
Sólo esta nave insomne que vara en ti
sin que lo sepas.

© Jorge Castillo Fan
(De Canción Triste de Cualquier Hombre)

 

 

 

O Chão de Nossa Terra”

Guardasse o Tempo o número dos passos
de todas as pessoas que passaram sobre “o chão de nossa terra”
nos mais diferentes e tocantes compassos,
esse número atingiria ou ultrapassaria
o das sementes das flores ,das frutas e das árvores
o das estrelas no firmamento?
Antes, os passos descalços dos indígenas,
depois os das criaturas mais pobres
-e a dos negros escravizados,
acostumados às longas passadas em suas terras africanas...
As botas, botinas, dos mais abastados,
Os que passaram em procissão e cantorias por imagens santificadas,
Os embriagados, os pândegos, a estudantada e seus Mestres,padres e beatas,
poetas amigos das noites enluaradas e, mas também da escuridão..
Lágrimas nos enterros, dos que ficaram saudosos,
Suores dos trabalhos de fazer calçamentos com pedras,
dos vendedores, dos carregadores de liteiras,
trotes e marchas várias de cavalos com seus cavaleiros
ou daminhas, em selins especiais...
Sangue de forçados, prisioneiros, chicoteados,assassinados,
de joelhos em carne viva,por devoção ou castigo...
Soldados ao voltarem das guerras insensatas,
inconfidentes, magistrados,idosas senhoras em suas cadeirinhas,
jovens e criancinhas a subir e descer ladeiras.
Depois, as rodas das carroças e carruagens, substituídas por pneus,
desfiles e danças , turistas, automóveis e caminhões...
Peso demais para "o chão de minha terra",
onde os bardos e os artistas enxergam claros desenhos de dores e flores,
sinais, brados, denúncias, canções,pedidos, soluços de amor e de saudade,
dessa história maior e mais cheia de detalhes
que as histórias da História nos livros reveladas..."

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

 

 

Nós Somos da Mesma Aldeia

todo brasileiro é índio
índio já foram milhões
este Brasil mestiço
é a soma de muitas Nações

e cada dia que nasce
nasce uma nova Nação
os meus traços na face
as mesmas linhas na mão

sem bordunas
sem tacapes
só o som dos atabaques
e a roda de se dançar

sem flechas
sem canhões
só o som dos corações
e a vontade de abraçar

sem feitor
sem capataz
só o som dos maracás
e o canto da lua cheia

sem medo
sem violência
só o som da consciência
nós somos da mesma Aldeia.

Eliakin Rufino

 

 

 

VOCE SABE?
(anotações para um Seminário sobre o Medo).   
 
O medo/biombo
de pau duro
é a última mulher a sair
do gás. 
Medo/bicho
de atravessar pedradas
é a vida química no ar
se metafísica. 
o medo se disfarça
lírico
fios
a física entre o bem
e o mar (mental)
de vácuo. 
Medo
que perambula, vela
cordas
de alguma poesia. 
Medo de calcinha
ensangüentado
a bailarina
no açougue do ódio.
O amor está com medo
teme ser abatido em cada esquina
pede proteção à polícia
tranca sua matrícula na UFPB.
Desse amor eu conheço os cabelos
sua boca de menina moça
sua solidão ameaçada
suponho que aquela rajada
o tenha abalado.
Por que não o prazer a mil?
por que não o corpo livre
o coração pertinho, bulindo
em seus mais íntimos desejos?
O amor está com medo
últimamente não tem sido visto
nas festinhas do bairro
sua mãe não sabe do seu paradeiro.
O medo/pedra
dormindo no corpo,
furando cavernas
e copos
no ar, para um silêncio.
(há um medo
atrás da porta
esperando a hora
do seu bote
de cobra caninana).
Desse medo
o gelo-degelo
o solo dessa filosofia
secando em mares
o que de ameaçador
possa nos calar.
Desse medo faminto
a cabeça rodando
seu pânico nas ruas
corpos e sentimentos
pulando do 20o. andar
nesse mastigado
e baba
poeira de suas pedras
voando na vidraça.
Cacos de medo
rasgando a carne crua
desse tempo ensangüentado.
O medo gelando a lareira
medo/fumaça 
entrando no corpo pelo nariz
sorridente a cada noite fria
de pessoas em silêncio.
Medo no fogo
fervendo o chá de portas fechadas
e do seu quente
do seu gelo em chamas
o coração aos pulos
capinando o sentir daquela tarde
que um dia deixou o medo entrar
entrar e se sentar à mesa
o convidado em cada prato
em berros carnais
pisoteando a família reunida.
(E quem o chamou?
o medo terá chamado o medo
para essa roçadeira imaginária,
para quê? Por que?).
Sabe qual é a diferença?
o medo é uma parede
e uma cabeça
ao mesmo tempo
batendo como marreta
no peso-pesado do corpo trêmulo
em mais uma garfada.
Medo/terra
jogado ao chão
poeira de um medo maior
construído com a mão decepada
relógio de uma verdade
que continuará fedendo
com medo de si mesmo.
    
O medo adora falar a verdade
(o medo enquanto mentira cabeluda).
O medo decora suas mentiras
(o medo, portanto, sugerindo aberturas).
O medo é um senhor careca e falador
(falas muito bem construídas aprofundando o silêncio).

O medo que a revolução lhe corte a língua
(medo oncológico em sua violência bacana).
O medo empacotadíssimo para presente
(pânico de carne de porco e feijoada aos domingos).
O medo que a democracia vomite na cara
(rosto que o rosto em bocas bem abertinhas).
Medo radical em seu machismo cor-de-rosa
(mulheres nuas, com o braço-abraço dentro da vagina,
calçando botas de soldado).
Medo armado em seu desarmamento
(o medo e seus cavalos degolados, sorridentes).
O medo gerador desse pânico fabricado
(e quem decide sobre o céu e o inferno nesses agoras e nuncas?).
Abrir a cabeça do medo com essa alegria
(o medo voando sozinho nos céus da mera cavalice).
Atiçar o medo para suas carrancas
(os mares e rios de nosso medo abissal).
O medo no reino: bobo da corte cortada
(como servi-lo no almoço de hoje?).
Do paleolítico, o medo como água na caverna
(shoppings produzindo risadas na escuridão).
E quem tem medo desse deus e sua calma de buceta cabeluda?
(fúria travada a cada vingança metal).
E o medo-arma, de sua bela pobreza
(riquíssimo e belo, o medo e seu ego dilacerado).
O medo índio enquanto unidade e nação
(puro e sensível como o negro lutador e suas elites).
O medo e suas mulheres hostis
(apaixonado, entregue, o medo vaga sozinho pelas ruas).
Como ser humano, abre-se à tampa do abismo
(seu vômito é verde para cada azul desses amarelos). 

Virá pelos céus este medo inicial
(naves rompendo o chão das grandes cidades alegres).
 
Enquanto teoria, o medo vai ficando triste
(e triste, vai se deprimindo a partir da falsidade).
Jorra-se tanto medo das aldeias
(multidões teleguiadas em sua cosmogonia comercial).
E por que não entender o medo assim?
(500 anos depois, ainda não há nada a declarar).
Pau a pau, sua conjunção cala os céus
(no inferno, vomitando cada palavra de outros medos).
O terror é um pressuposto desse material
(monumentos ao pó da angústia, agitando no ar).
Novelinha das sete, a sociologia do medo berrando
(como esperar que o medo salve alguma coisa?).
O medo vem cercando a universidade
(tapumes, cercas, porteiras de grito bom).
O medo científico nos congressos
(modulações e encantamentos sobre suas pedras).
Banal e forró, dança com ele quem se cala
(tribal em seus carnavais de trem parado).
   
Tempo, tempo, tempo
(cuidados com o corpo em seu levíssimo culto ao medo).
O orgasmo da mulher como partida
(o homem com medo de si mesmo no fascínio fedorento).
De longe, o medo que vem no vento
(estudar esse barco que vaga nas marés).
Excluir o medo do medo
(festa de aniversário de 15 anos, aos 90).
O poder tem medo, o povo tem medo
(a psicologia comendo o cérebro desse bacanal sisudo).
Fabrica-se o medo a cada filho
(a família mastigando mecânicas para um quase Deus de mentirinha).
É vazio o quadro desse medo devastador
(branco e branco, a limpeza das carrancas em sua devoração).
Tudo é fabricado, o mercado e seus afagos
(o medo bombeando seus atravessadores por aqui).
Pense que as novas concepções também chupam
(realimentar o sexo meticuloso como saída para qualquer lado).
A vida já não depende mais do medo
(antes, gera a criança do monstro que sorri).
O medo/ovo, logro, medo transmutador
(e cedo, cedo, amanhã em que tudo poderá sair melhor).
Platônico e Plutônico, a dor é  um medo com ferroadas
(na arte, mudando a cada cena do sideral mitológico em tantos).
O medo é um vampiro que não nasceu.
O medo é mais medo
Quando silêncio
Quando comum
No carnaval.
Medo carnal
Sem ossos
Sem caroço
Meio semente.
Medo que o demente
Atue
Do mulher
Da homem
Que o feminino
Vem cuspir
(um medo a quem?)
ao outro.
O medo do homem
É ancestral
Vem com o sangue menstrual
Dos furacões
E no meio das mulheres
O próprio medo de ser
Os seus trovões.
O medo em blocos de sangue
Ele, gemendo, roendo
cabelos de seu oásis particular
e, dentro da noite de seu pânico incinerado
abre seus olhos negros
na noite escura.
Em seus mistérios
o impotente violento acorda
o mistério do poder arruinado
jogando várias facas de gelo
no corpo já despido
desses gases em granito.
A um canto do quarto
desse domínio
bem abaixo dos sete palmos do chão
das cegas contradições familiares
o medo social vem se lambendo e se lambuzando
o edifício desse medo já trêmulo
sorridente em suas angústias
de uma mamãe qualquer.
E o que esperar desse motor a mil?
motor à mão,
emperrado pelo seu medo particular
que a qualquer momento poderá soltar o anjo terrível
de sua inocência medonha,
para um vôo particular e aceso
rente ao chão dos amarelos púbios.
É estranho como os pássaros
tem medo do seu ofício de voar
ao entardecer ficam cegos
e aí, se recolhem,
para um nunca mais de “tantras” noites.
Somos estranhos à esse vôo
alguém pode até se perguntar em si:
Tem alguém aí para carregar algum projeto público?
A mulher vem na direção do medo
nua (porque o medo está nu)
vem como unha-vida em blocos e carnavais
mármore e cabeluda
neve e muito particularmente ninguém
para dentro da louca poesia que berra.
E como reagir ao medo
sem que o próprio medo
coma nossas palavras
da boca de um cabeludo orifício
chamado espírito?
Alguém bate na porta.

Pedro Osmar -PB

 

 



Matéria publicada em 01/08/2009   - Edição Número 120