Nesta edição quero lembrar o poeta Sérgio Campos que nasceu na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, em 23 de janeiro de 1941, e faleceu aos 53 anos, no dia 28 de dezembro de 1994. Lembrar assim sem data no calendário, porque amigos e bons poetas devem ser lembrados quando sentimos que sussurram ao nosso espírito sua presença. Tive o prazer imenso de me corresponder com ele e receber sua amizade. Então deixo uma mostra de sua poesia que tanto me seduz ainda e convido os amigos para buscá-lo nos caminhos virtuais, pois é uma viagem que vale o prazer.
Jurema Barreto de Souza
Obra Poética
A casa dos elementos, Achiamé Editora, Rio de Janeiro, 1984.
Bichos, Edição do autor, Rio de Janeiro, 1985.
Ciclo amatório, Scortecci Editora, São Paulo, 1986.
Montanhecer, Scortecci Editora, São Paulo, 1987.
Nativa idade, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1990.
O lobo e o pastor, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1990.
As iras do dia, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1990.
Móbiles de sal, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1991.
A cúpula e o rumor, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1992.
Leitura de cinzas, Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1993.
Mar anterior (poesia selecionada e revista 1984/94), Mundo Manual Edições, Rio de Janeiro, 1994.
ABISMO DE UM REI
Posso deixar
rastros de ouro onde passe
que ninguém me seguirá
porque assusto os sóis
Posso afligir e sangrar
que a ninguém vingarei
pois ao rei pertence
o inimigo do rei
Posso isolar-me
em sedas e palácios
que nem a sombra
me visitará
Posso partir
os olhos do espanto
que nem o medo
me será fiel
Será preciso
adormecer com as águas
regressar ao exílio
erguer a pedra
do insepulto herói
para que saibam
quem sou
Sérgio Campos
ELOGIO DA SOMBRA
Do branco à sombra
tudo são inverno
são elegia
no pórtico da noite vertical
Sucumbiremos nela
palco da beleza serena
com nossas abstrações velhas
e nosso horror à realidade
Poeta loucos
músicos surdos
pintores cegos
— do que é feita a arte
sucumbiremos
para renascer
sem calendários e roda
de fiar
Sérgio Campos
ESCULTURA DE UMA ÁRVORE
A escultura de uma árvore
brota do chão
das gretas da terra
irrompe
áspera
veemente
A escultura de uma árvore
captura espantos
irroga ao sol
profecias gestuais
violentas
A escultura de uma árvore
estende ramas
ao prazer de seu nume
brande galhos delirantes
eclode em flor
seu cio vegetal
A escultura de uma árvore
se enrijece e treme
samurai do vento
úbere das chuvas
onde sorve o sêmen
do plural que engendra
A escultura de uma árvore
não se repete:
recicla-se
em formas terminais
sugere os temas
aos madrigais da terra
A escultura de uma árvore
não cicatriza
é arte corporal
nativa
urdimento de raízes
dançarina de ventos germinais
A escultura de uma árvore
sabe a ira dos dias
o lenho e o estupro
a serra e a amputação
Coreógrafa
de sua própria morte
faz do abril
pálido pássaro
Pede silêncio à lâmina
e o gume se cala
Rebelada e última
a escultura de uma árvore
imola-se à beleza
flora assassinada
ofício de trevas
Sérgio Campos
Celebração do Vinho
Corpus
A memória da terra codifica
e aduz à escritura dos milênios
as famílias que o tempo semeou
e forma deu e vida permanente
E assim das cepas nominadas é
o paladar nativo que nutriu
a pássaro e a homem igualmente
segundo a terra aconselhou e hauriu
do sol vertido sobre o fruto exato
E das famílias foram contempladas
aquelas de sementes mais tenazes
que se puseram embriões ousados
sobrevivendo aos climas mais severos
até que cepa e homem começassem
a se agregar em doce epifania
Anima
A se agregar em doce epifania
o homem conheceu novo prazer
antes cativo à fruição dos deuses
que Baco urdiu em vales e penínsulas
das quais a itálica elegeu seu reino
E revelada foi a alma do fruto
que se ofertou aos homem em segredo
no interior do mosto dessangrado
E recolhida foi em substância
posta em clausura nos tonés escuros
para vestir a cor de seu mistério
do que se fez em vinho a alma do fruto
Então libou o homem junto aos deuses
pois ao prazer lhe houveram destinado
Vox
Pois ao prazer lhe houveram destinado
falou o homem pela voz do vinho
esconsa voz de puras emoções
E ao vinho branco conheceu primeiro
depois ao tinto e com discernimento
verdes vinhedos e maduras vinhas
Da voz das cepas conheceu famílias
e nominou-as para que soubessem
de sua prole idade e procedência
nos protocolos lidos pelo tempo
E viu gerar-se o vinho no silêncio
até chegar a vez das oferendas
na culminância de seus hemisférios
pois a vindima fala do bom vinho.
Ablatio
Pois a vindima fala do bom vinho
eleito foi a celebrar as ceias
e fez-se sangue do martírio e símbolo
do amor cristão aos povos ofertado
Mas dividiu-se o homem pela fé
e onde Khayyan brindara outrora à vida
as vinhas anciãs foram ceifadas
enquanto ao Novo Mundo advieram
as cepas que a Europa humanizaram
e o imigrante em terra intumesceu
em lavra peregrina e paciente
E as vinhas nessas terras situaram
entre as sulinas sedes da aventura
onde multiplicaram pão e vinho
Libatio
Onde multiplicaram pão e vinho
que a todos distribuam suas dádivas
sagrando a uberdade da mãe terra
Que venha sempre farto o vinho à mesa
e se divida em vários sendo uno
pois é igualitário o que comum
Brindemos ao que é fértil e geral
em generosas fontes nos jardins
Que se devolva ao homem como dança
e como canto de celebração
que a emoção converte em poesia
Brindemos afinal à própria vida
que o vinho ensina o homem a fruir
com o prazer do amor e da alegria
Sérgio Campos
O NAVEGANTE E SUA LENDA
Soprou um vento fatal
varreu nosso ancoradouro
fez-se nossa expiação
Quando a maré sossegou
o porto se transformara
em campo de girassóis
Como navio-fantasma
remamos entre espantalhos
de marinheiros possessos
em trapos de febre e sonho
Chagamos as mãos nos remos
pois navegamos o exílio
e navegamos a dor
Tomamos posse do frio
de cemitérios de búzios
nossos ossos são ruínas
legado da pedra ao tempo
Muitos de nós se morreram
somos o luto de Egeu
velas negras no horizonte
de lendas adormecidas
Não temos noite ou aurora
somos um sol vertical
resgate da sombra ao frio
por um punhado de luz
Por isso te demandamos
de nosso mar feito chão
devolve nossas marés
a bordo de alguma ilha
ao oceano que somos
Teus enigmas vermelhos
salgarão nosso convés*
Sérgio Campos
Matéria publicada em 01/07/2009
- Edição Número 119