A Revista A Cigarra continua existindo, fiel a sua vocação de divulgar a poesia neste espaço. Os interessados na Revista impressa e que ainda gostam de tocar a suave textura do papel, cheirar a poesia, suas cores e tintas, tirar um volume de sua biblioteca para lhe fazer companhia numa tarde de ócio criativo, informe-se como adquiri-la através do nosso e-mail: acigarra@ig.com.br. E que tudo acabe em poesia. Jurema Barreto de Souza (www.revistacigarra.blogspot.com).
Jurema Barreto de Souza
Susto
Vim no susto da vida,
meu pai de mim distraído,
minha mãe de mim desistia.
Eu devia estar certamente
ocupada com minha poesia.
Jurema Barreto de Souza
plano rápido
descasco a pele do dia
como se fosse uma fruta
filha da feira
desfaço o tédio
dizendo-me sério
em tom de brincadeira
se restam dúvidas
no caminhar entre as pedras
descolo a poesia primeira
sob o sol
me desfaço da morte
por uma vida inteira
zhô bertholini
cedo ou tarde?
o ocorrido.
forçosamente
na pele líquida
o rubro leve.
1
metal nos ombros.
parafusos
apontar
para
só no aço.
envergando a minha espinha,
torre.
Michelle M
Despertar (em São Paulo)
Sempre pela manhã
Um som de gerador
Vem deste prédio antigo
Um som maquinário
Grave, constante
Um som estridente, austero, intrigante
Hoje não tenho mais dúvida:
Esse é o som das catracas do dia
Das engrenagens da vida
Sendo ligadas,
Postas em movimento
Enquanto a cidade
(São) paulatinamente
Vai despertando de seu sono...
Marcelo Bastos
Sertão
Ser temporão, fruto agreste e aboiar sem rumo
em lombo de Lazão ligeiro.
Romper com qualquer cabresto, qualquer rédea.
Lazarar a passos perdidos,
cooptando as folhas desprendidas
os lanhos dos espinhos
E ler as epístolas dos mandacarus
das algarobas, recitar os caroás
e as macambiras.
Ser assim, ser tão forte
Ser Sertão...
Georgio Rios
A NOSSA CIDADE
Nenhuma cidade
é mais bela
do que a nossa.
Sabes por que ?
É nela que descobrimos a beleza.
Existem as sombras, as carências, as negações,
as extremas frustrações
e a insensibilidade dos nossos irmãos.
Mas é na cidade onde nascemos
que descobrimos o encanto de uma rua,
a magia de um beco,
a explosão de uma praça,
a necessidade de um vizinho,
a pobreza do universo de alguém
- na própria família – ,
a alegria intraduzível das crianças
e a primeira emoção do amor.
Na nossa cidade, mesmo que ela nos ignore, sabemos que a humanidade existe
e que somos parte essencial dela.
O mundo ?
O mundo nasce na nossa cidade.
Juareiz Correya
Pablo
Todas las vidas tu vida,
todas tus vidas la vida,
tu vida voraginal, Pablo,
tu vida de incendio enorme
desplegando sus existencias
centrifugal, centripetal,
arrasándose y volviendo
a erigirse de sus cenizas.
La llamarada de la poesía,
el relámpago multiplicado
en letra sacramental y sonidos
desgarrando su túnica nerval,
húmeda para siempre
de lluvias perpetuas enraizadas.
Por la delgada línea terrestre
tu iridiscencia de apiñadas aves
tremolando su abigarrada
multitud de ávidos gorjeos.
Sobrehumano estremecimiento
de iracunda geografía,
de despiadadas placas terrestres
sacando de quicio al planeta,
conmoviendo extensión y altura.
Del Sur vienen las letras de la selva,
del Sur su lenta estampida,
y en la depresión central la lluvia
austral instauró su monarquía
de guturales sílabas goteando.
¿Y ahora, Pablo, ahora, camarada,
hermano de luz fulgurante
quemada, quemándose aún,
arrasada y arrasando,
sacudiendo de letras la geografía?
Ahora tus vidas dispersas,
ahora todas tus vidas
en mí, en la página, en el pupitre,
en el viento, en la ola tránsfuga,
en la lluvia y su desnudez disuelta,
en el temblor de la claridad nocturna,
en todas las lenguas de la hojarasca.
Ulises Varsovia
de:El Transeúnte de Barcelona
Chuva
ouvir a chuva
silenciar palavras
recolher sobras
diárias
da convulsão
humana
sentir a chuva
aproximar pessoas
acolher o tempo
desigual
endêmico
lavar as mãos
de quem só soube tê-las
fechadas
Hilton Valeriano
1º de abril*
Em memória de Edson Luís,
Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho
Quando os pelotões invadiram as calçadas
com milhares de botinas pisantes de couro
tantos olhares absurdos olharam
com a curiosidade costumeira
estampada nos olhos
crianças inocentes
talvez brincando com a velha brincadeira
de “polícia e ladrão”
devem tê-los visto com olhos de quem vê
heróis de histórias em quadrinhos
mas naqueles locais não se encontravam Batman
Homem-Aranha, Super-Homem
e nem mesmo à nossa direita
o velho Capitão Aza
não havia mocinhos fardados naquele momento
havia sim, facínoras que nos roubariam
todas as possíveis liberdades
daí veio à dor
em forma de telefones, paus de araras
afogamentos e estupros
sevícias serviram de serviço
que levariam seres humanos à morte
e os homens fardados que ostentavam estrelas
manchavam o céu de todos nós
e aquele céu tão blue
transformou-se em gritos, sussuros
sofrimentos e orfandades
nos porões dos departamentos de ordens
públicas e sociais.
Era um dia de mentira
e muitos ousaram não acreditar
no que seus olhos viram
e o que ficou de dolorido na história
nesses quarenta anos passados/presentes
é que apesar do dia
na escuridão de todas as noites
o que ficou realmente de folclore
é que toda aquela real injustiça
foi erroneamente, verdade.
Rogério Salgado & Virgilene Araújo
(Publicado originalmente no livro “Tipo Exportação”, Belô Poético-2004)
*1964-2009 – 45 anos de golpe militar brasileiro, fato histórico
ocorrido dia 1º de abril de 1964, mas divulgado como sendo
dia 31 de março, para que não parecesse uma mentira.
Re-visão (O fim da Mecanografia)
Vou re-visar meus textos
E desafiar a gramática!
Ignorar as normas...
Exilar-me no meio do nada...
Viver no vazio.
Render-me ao consumismo instantâneo.. .
Cultuar heróis fabricados.. .
Heia...
Quero dar ‘’um viva’’ a comunicação de massa...
Vou invadir o mundo pagão!
Devorar suas reservas naturais...
Nutrir meu ódio
E banhar com ouro negro!
Dar ‘’um viva’’ a pirataria pós-moderna!
Heia tempos pós-modernos. ..
Viva a mecanografia dos tempos modernos!!!
Heia as armas de destruição de massa!
Sobras da loucura do século passado...
Sobras escondidas que ninguém...
...encontrou!
Sombras da tecnocracia que mata!
Ipi!
Ipi hurra!
Vou me esconder nas matas!
Armar-me...
& reverenciar os deuses antigos...
Mortos-vivos a caminhar pela relva!
Vou ficar na frente da T.V!
E ver o impensável
Golpes de marketing...
...engendrados nos laboratórios dos comunicólogos!
Bruxos modernos...
Neo-alquimistas cibernéticos!
Que fazem a mentira virar verdade!
Que faz o branco virar negro
E o negro virar branco!
Eita!
Não vou me formar...
E vender coisas que não existem!
Produtos virtuais!
Ferramentas pós-modernas!
Já nascidas ultra-passadas!
Eia
Eia
Oh
Vou-me micro-processar
Vou prostibular minha imagem!
Peregrinar pelo ciber-espaço. ..
E por a venda aquilo que não tenho!
Expor aquilo que não sou...
Eia
Eia
Oh
Vidas pós-modernas!
Movidas a doces que matam...
De festas embaladas há drogas sintéticas!
Massa dissoluta a frita neurônios
Deuses bacantes da pós-modernidade
Vou assistir a processos burocráticos. ..
Que não dão em nada!
Processos digitalizados
Que vão dar o vazio!
Vou ver audiências públicas
Falatório dos demagogos...
Arenas de embates
Circo de hoje
Televisiono. ..
Palcos dos nada!
Eia
Eia
Telegrafia sem fio!
Cabos de fibra óptica postados...
Em alto mar
Rios de informação...
A se perder nas inutilidades diárias...
Blogosfera aonde reina coisas inúteis...
Bobagens digitalizadas a se amontoar no vazio.
Viva a comunicação via-satélite. ..
Espaço cibernético!
Viva os...
...diários públicos que ninguém lê!
Ipi!
Ipi hurra!
Viva aos cartões de memórias
A telefonia móvel...
Rede viva de coisas inúteis!
Consumismo vazio!
De objetos da moda!
Caros
Que nada valem...
Estampadas nas revistas de moda!
Grifes
Marcas
Modelos vivos,
Peças ocas da produção em massa...
De toda a produção em larga escala...
A consumir o planeta
Eia
Eia oh
Pirataria-terceiro mundista!
Trabalho escravo!
Ipi!
Ipi hurra!
Viva o Fordismo de hoje!
Viva o Toyotismo de amanhã!
Viva toda a onda globalizante. ..
A esmagar culturas!
A super-aquecer o globo!
Eia
Eia oh
Toda a sociedade
Interligada
Massa humana
A caminhar por ai!
Mundo globalizado. ..
Interligado e dividido
Eia
Eia oh!
Viva a crise financeira mundial
A derrubar governos
Eia
Eia oh!
Vou socorres os bancos...
E hastear a bandeira
Up a July Roger
Uma garrafa de rum
Under a July Roger
Eita
Eita
Geração modernista
Caricaturas massificadas
Que nada valem!
Viva o pós-modernismo. ..
Viva as promessas dos políticos
Que nada valem
Eia
Eia
Oh
Das doenças infectos contagiosas. ..
A traçar o continente negro
A devorar os guetos das metrópoles...
Vidas pós-modernas. ..
Heia megalópoles.. .
Vivas os intercâmbios criminosos.. .
Cartéis globalizados!
Crimes mundializado. ..
Viva os sigilos bancários!
De fraudes...
De orçamentos super-faturados!
Manipulados!
Eia DNA...
Eia ciência floresce!
Eia ciência que mata
Eia ciência que cura...
Massa humana...
Scum a cruzar fronteiras
Ruínas vivas...
Sem nome
Sem passado
E sem futuro
Farrapos dos novos tempos
Vítimas das loucuras modernas!
Das verdades que mata...
Dos foguetes teleguiados. ..
E tanque...
A cruzar fronteiras
Toda a cultura imposta...
Artificial
Atemporal
Viva a mecanografia!
De hoje
Do ontem
E do amanhã...
Samuel C. da Costa
poeta em Itajaí SC
MÚSCULOS ESPESSOS
Deus desfez o nó do meu avesso
ao sublinhar-me com seus dedos
na orgânica galáxia
me fez espírito minúsculo
em músculos espessos
atmosférico de raiva
eu brigo de braço
pelos desembaraços da luz
e deixo no ar um trovão
sinal de fúria
em quilômetros de coração
*
inspiro expiro espirro risadas
e tudo - ou mais – suspiro
por significar-me carne e delírio
ó coração iníquo!
como preferes o que te fere
inclinado ou oblíquo?
traquéia brônquios pulmões
consinto este amém!
a todos os oxigênios:
ave ares além!
*
não há cor que me aclare
nem clarão que me esclareça
os crepúsculos que me crescem
pleno de crepúsculo
o poema atracou-se com a noite
e sujou-se de luz
manchando as trevas
*
L. Ponti Pontedura
Matéria publicada em 01/05/2009
- Edição Número 117