A Revista A Cigarra continua existindo, fiel a sua vocação de divulgar a poesia neste espaço. Os interessados na Revista impressa e que ainda gostam de tocar a suave textura do papel, cheirar a poesia, suas cores e tintas, tirar um volume de sua biblioteca para lhe fazer companhia numa tarde de ócio criativo, informe-se como adquiri-la através do nosso e-mail: acigarra@ig.com.br. E que tudo acabe em poesia.
Jurema Barreto de Souza
cultura & etecetera
disse alguém, não se sabe ao certo quem, que cultura rima muito mais com fissura do que com fartura. postura paradoxal de interesses & interessados. ponto de vista de contemplação & contemplados. quem pode, pode sempre mais, quem não pode perde a vez & vira freguês na fila de espera de projetos & produções. a base desta dinâmica justifica-se entre o verbo & a verba além de outras possibilidades que nem sempre são qualidades, mas sim quantidades. penso, sinto, logo desisto de manter participações & discussões cujos objetivos são as possíveis visibilidades dos detentores do poder, das influências & todas as demais conseqüências que fazem valer, sempre em vias de regras, o que é bom ou ruim na arte & na cultura. explicações não absolvem as contradições freqüentemente presentes nos intentos & nas intenções. invenções & criatividades não pertencem a estes domínios. cultura como moeda de troca não invoca talento & o fazer artístico não se resume a eventos & acontecimentos etecetera & tal. quando se questiona é porque de fato não funciona & quando funciona, às vezes deixa a desejar. é claro que nem tudo é insatisfação, mas sempre há uma sensação de filme já visto & revisto. pessoas & personagens dos mesmos cenários.“a história se repete, eis o erro fundamental”, escreveu o filósofo. insisto & repito, cultura é todo conhecimento que se transmite, o que se guarda é burrice, ou então pura caretice.
zhô bertholini
CORES INEVITÁVEIS
O vermelho não representa
somente a vida
Representa e ostenta
a síndrome do pânico
da barbárie.
Vidas são ceifadas
a cada segundo.
De repente tudo fica preto,
fumaça, fogo, destruição.
É a onda terrorista
manipulando nossas ações,
dando força e reforçando estas
cores avermelhadas
sincronizadas com
a resposta atroz das chamadas
nações civilizadas.
O sinal de alerta
não é mais amarelo
é negro!
A ecologia não é tão verde
é acinzentada
amarronzada
sobressaindo as queimadas!
Gases poluentes
arrebentam a camada de ozônio
Afinal outros interesses
compactuam com o capitalismo brutal
das nações abastadas.
A vida é circundada pelo cinza e as perspectivas também!
Um horizonte assombrador
se forma a nossa frente
e cidadãos impotentes
se defendem como podem
de um inimigo incomum e onipresente!
jumentos voavam
sobre minha cabeça
em plena inexatidão sertaneja
era fértil, febril e cristalino
o grande mar vermelho
que de tanta ressaca, tava tonto
carijós atraentes
conquistavam gaivotas reluzentes
na amena noite sem luar
mariposas vaga-lumeavam
por entre os xique-xiques
grenás de desesperança
pulsava em minha veias
desvarios bem comportados
por entre fogosas
sensações, sedas e meias
um horizonte rochoso
se formava ao leste
cravejado de sons multicores
todos reverenciavam a grande mestre
lembranças futuristas
aguçavam meu imaginário
nada mais purista
que o revés dum incendiário
cenas imergiam e emergiam
no meu subconsciente abalado
naufragados, meus sentimentos
se perdiam por entre flores e espinhos
ressecados pelo Tempo [...]
Marcos Leonidio
A PAINTING
Paradise
shapes
the painter's gaze.
Thirst to see
wingless
still life.
Meditations
of a brush
that dissects
beauty.
Almandrade
(tradução: Steven F.White)
Uma pintura
O paraíso
contorna
o olhar do pintor.
Sede de ver
natureza morta
sem asas.
Meditações
de um pincel
que disseca
a beleza.
Almandrade
CLUBE DO PÃO-DE-QUEIJO
Mineiridade se faz
De pontas e corações,
Sem espetar, nem palpitar,
Flui nas energias do dia a raiar.
Encontros do Pão-de-Queijo,
Rever frango, quiabo, bambá de couve, tutú,
Regados à uai, sô e trem-bão,
Forte momento, até que não foi em vão.
No Clube da Esquina ou no bate-bola,
Redescobrimos heróis, totalmente humanos,
Fizeram do nosso lugar, cultura mundial,
Lembranças saudosas do fogão-de-lenha, uau.
Ser mineiro é ficar à vontade,
Prosear, decidir as coisas num bom diálogo,
Nos encontros inesperados, amigos,
Tão estranhos, tão próximos, parecem antigos.
Povo apegado ao local,
Sua terra, paisagens, gentes,
Histórias e vidas presas ao que acontece,
Falar de Minas é reencontrar-se, é o que parece.
Muitos se foram, mundo afora,
Poucas chances de voltar, distâncias,
Mas qualquer motivo faz revelá,
Com vigor e falas, saudades de lá.
Na benção, respeito aos mais velhos,
Gente de beleza própria, todo sorriso,
Na conversa ao alpendre, marota ou desconfiada,
Sempre alegre descontração, mesmo com língua afiada.
Se pudesse escolher, não seria escolha,
Vidas construídas com garra, seriam mais descobertas,
Riachos, serras, valores, arquiteturas dos treis,
Voltar a cantar em tom muito próprio, mineireis.
Três pontas da mesma montanha,
Três corações entrelaçados pela territorialidade,
Pulsações tricotadas, trilógica presente,
Uma trinca que reúne toda nossa gente.
Luiz Afonso Figueiredo
Intervalo
Por que lapiseiras não tocam?
Grafites bem que podiam tocar.
Improvisar notas sem verbos
conjunções
preposições
sinais. Grafites deviam ser maleáveis
rápidos e reticentes
como um solo de Lee Konitz.
Grafites bem que podiam ser soltos,
etéreos
ásperos inexplicáveis.
Grafites deviam parar de tentar
explicar o mundo,
pessoas
estados e tempo. Grafites deviam esquecer a náusea
e ouvir mais música.
Marcia Frazão
www.marciarfrazao.blogspot.com
O gótico
Eu sou o poeta da escuridão
que semeia em frios jardins
flores mortas
com as pálidas mãos
Sou o ser escuro
que vigia a noite
com o olhar de vampiro
buscando encontrar a beleza
que se esconde em cada sombra
Meus olhos pintados de preto
vêem o que não pode
ser visto
pelos olhos mortais
Eu sou a bruma noturna
o ouvido dos
Gárgulas
nas catedrais
Eu vagueio nos céus escuros
onde os olhos dos
corvos
brilham
no mágico crepúsculo
Nas trevas
vejo a luz
que poucos ainda
produz
e na terra onde os seres
do dia
rastejam
plano suavemente com
minhas asas de
anjo negro
Minha solidão
devora as horas
esperando o dia terminar
até cair sobre mim
o manto da noite
onde sonho acordado
sem despertar
Meus versos escritos
com sangue
deslizam como uma chuva tépida
nos prédios abandonados
onde deixo o lamento de um mundo
doente
gravado
Doenças deixadas pelos seres
do dia
que destroem o mundo
com sua ímpia enfurecida
Quem são os estranhos?
Ou seriam os loucos?
Deixe-me só com minha tristeza
pois o que resta é chorar
afinal, alguém precisa chorar
então
que seja eu
o ser da escuridão
o Nosferatu
Deixe-me acender minha fogueira
na terra das almas mortas
quero deitar-me sobre as lapides frias e tortas
deixadas pelos seres
de outrora
Deixe-me cantar
nas entranhas escuras
Close to me
o mundo está doente
talvez não há mais cura
alguém precisa chorar
então que seja eu
o ser da noite escura
Sandro Kretus
DE REPENTE
De repente amar
é mais que um copo
de cicuta na mesa de cabeceira
é mais que uma corda
no pescoço pendurada
é mais que a gilete
no pulso comovido
com o sangue do ontem
é mais que saltar
de um prédio do doze andares
ou atirar-se aos famintos
trilhos dos trens.
De repente, a maior prova de amor
e não sofrer.
Jurema Barreto
Matéria publicada em 01/10/2008
- Edição Número 110