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Editorial

Essa opção pela poesia, por incentivar a leitura e acreditar que cultura se faz todos os dias com cada ação individual que acaba por refletir no social é no mínimo uma insanidade nossa.  Como disse Zhô Bertholini: “ Os alienados somos nós”. E é verdade. Por que não estamos preocupados com a Bolsa de Valores? Por que não estamos preocupados com o Mercado Editorial que não sabe consumir um biscoito fino como A Revista A Cigarra? Por que não criamos, panelinhas e outras “inhas”, que nos dessem uma “graninha”? Porque não queremos o carro do ano? A mulher do ano, os peitos do ano, a bunda da moda? Seria tão mais fácil, tão mais isenta nossa culpa, já que a maioria vence democraticamente. Por que este prazer erótico/poético de fazer um livro e sair dando aos amigos, como se fossemos acariciados por centenas de mãos? Vá entender!  E somos alienados na beleza, graças a Deus.

Jurema Barreto de Souza

 

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen

ROSA CHÁ AZUL ANIL

Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.

Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:

Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.

- meu azul demorado!

Bárbara Lia

 

Para sempre...

Envolvo meu amor em carvalho
Permanecendo eternamente guardado
Conservado na adega do coração
Busco paladar em finos cristais
Saboreando o sabor do bem amado.

A fonte da paixão que nunca cessa
Embriagam de prazer todos os dias
Nesta utopia que eleva os sonhos
Envolto na poeira do tempo
Abraço a miragem que se faz tua.

A vida que lá fora caminha
Deixo passar sem me importar
Aqui dentro fechado para o tempo
Só você meu acalento
Só a você brindo meus sentimentos.

Jailson Marques de Oliveia (Jamaveira)
jamaveira@yahoo.com.r

 

CONTRADIÇÕES DO CORAÇÃO

Ela disse-me: Te amo!
Deixei escapar o também.
Boca apressada! É a segunda vez.
Será que tu queres meu bem?

Ela disse-me: Te amo!
Deixei escapar o também.

Álvaro Alves

 

DESVARIO

Meus olhos não mais querem dormir
Porque por trás da cortina que os guardam,
Você está a me chamar;
Ofegantes corpo e alma queimam
E em desejo carnal querem
Sua beleza escultural.

Minhas narinas recusam-se respirar o ar daqui
Ele não tem seu cheiro para me alimentar
E ao sorver este vento inodoro,
Os pulmões não resistem à falta
De seu bálsamo e choram sem parar.

Meus lábios se fecharam
E não me deixam outra boca beijar;
Como se dissessem: noutra boca
Não existe o sabor da sua
E a vontade não vai passar.

Lubricidade em flama,
Sinto no sossego da noite escura,
Seu cheiro, corpo e amor
Mexendo comigo na cama...

Será Delírios? Loucura?
Não. É saudades!

Robério Pereira Barreto

LIÇÃO DA BACTÉRIA

Sei que
esta conversa não é fácil, a essa altura do campeonato,
mas... não,
não joga fora tuas mazelas.
Cata no lixo teu precioso tormento.
Se a bactéria tira do próprio sumo do veneno que lhe servem
a síntese de alimento que enrijece a capa de doença que a reveste...
Se assim faz na ferida do infortúnio que a ataca
a escada de progresso de um processo de escalada...
Se a bactéria de amanhã, com o que ontem a matava,
agora fortifica-se,
pára, um pouco só... e reflete.

A diferença entre derrota e linimento,
entre queda e nascimento,
é tudo uma questão de refinar o olho de águia
na escolha ponderada.
É como a água
que se precipita, e em vez de lamuriar suas  quedas,
é luz que produz.

É caso de,
no feijão misturado na mesa do sentimento,
bem catar com a alma em indicado dedo, entre carunchos e restos,
a saúde que aflora, em réstia e rebento.
Missão de garimpo e empreitada do discernimento.
Ousadia da paciência que não despreza toda dor que,
por mais negra, no fundo,
não te pega, não te praga, nem te apaga,
antes carrega, no avesso do corrosivo,
a prata da pepita que em grande parte, tão grata, te sustenta.

Por isso,
não amaldiçoa nem mesmo a rude tragédia crua que,
se num lado, ao te deixar tão ralo, te desnuda,
noutro te veste em guerreira nobreza e,
encourando a resistência,
te faz veterano, te ajuda.

É o pilão da dor preparando
no grão duro da angústia, o farelo do contrário.
A graça, em seus misteriosos itinerários.
Aquilo que num melhor você te consolida.
O ser mais sólido em que, justo onde o osso trinca,
melhor ali se calcifica.
A vida, ali, onde seu músculo dói,
é onde engrossa e fortifica, e, serena,
segue a vida, e num amanhã de canaãs te multiplica.

Denilson Cardoso de Araújo

 

 

Amor de Poeta

Satisfaça a minha vontade
de beber o aroma do teu corpo,
que estimula, extasia...
Destila no meu íntimo
o teu prazer!
Conduza-me a uma emboscada e
acabe com a timidez que
insiste em deixar rubra a minha face,
faça-me sentir o gôzo de mil anos!
Deixe-me provar dos teus afagos!
Quero descobrir o verdadeiro significado
daquilo que,
no afã pela consumação
esqueço que pode ser inexato!
Mas, o que importa afinal?
Se o que queremos é esta aventura
onde nossas vontades são análogas e,
se transformam num autêntico
Amor de Poeta!

Reini Cardoso

 

 

PALAVRAS...

Engulo palavras pronunciadas.
Mastigo-as depois de degustadas.
São tantas as palavras...
Boas e más.
Umas me comovem,
Outras me entristecem
Gosto das palavras doces...
Tristes são, as de saudades e despedidas.
Atrozes são, as que machucam a vida.
Boas são, as que nos iluminam
e melhoram a nossa auto-estima.
Não engulo,
As que nos subestimam.
Mas, as que me alimentam,
São as que falam de amor!

Tereza Neumann

 

 

ELITE MODERNA (brincando com assunto sério)

TANTO MIMO SE DEPARA
EM CERTAS FIGURINHAS BANAIS
FRUGAL O PRATO, RICO O TRAJE,TENTAM A TUDO O SINGULAR,
 
LIPOASPIRA DAQUI,SILICONEIA DE LÁ,
GRIFES, JÓIAS, MAQUIAÇÃO.
 
POR UM MINUTO DE FAMA
UMA VIDA SE ESCANCARA
ATÈ QUE POR OU SEM MERECIMENTO
ENFIAM A CARA NA "CARAS"
NO MEIO DE TANTAS CARAS! 

Hilda Mendonça

 

 

A GUEIXA

Envolta, saltitante e sorridente,
Nas cores do quimono de cetim,
Ei-la que surge, encantadoramente,
Animando a paisagem do jardim...

Mistura-se com as flores, tendo a gente
A impressão de que as flores, vendo-a assim,
Se curvam à Beleza, onipresente
- Na Gueixa, entre mulher e querubim.

Ora aqui, ora ali, ora acolá,
Em revista aos domínios do seu trono,
Rainha mais feliz então não há.

Move-se como sem tocar o chão,
Alando-se nas mangas do quimono...
- Um sonho, a borboleta do Japão! (5)

Nestor Tangerini

 

 



Matéria publicada em 01/05/2008   - Edição Número 105