Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka


Bem-vindo(a) visitante 18586299, 06/09/2010 • www.kplus.com.br


Busca no Kplus

Digite um assunto específico que deseja encontrar no site

Matérias

Mitos da Indústria de Informação
Kellen Cristina Bogo

Vestibular não é tudo
Silas Correa Leite

A greve da hipocrisia de Dom Cappio do São Francisco
Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

Como lidar com crianças com dificuldades em ler
Kétilla Maria Vasconcelos Prado - Lady Dayana de Lima e Silva - Maria do Nazaré de Carvalho - Teresinha Rodrigues Alcântara

Bom humor no trabalho
Ricardo Dorés

Serviços

Mais de 70 Jornais Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Revistas Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Museus do Mundo
Programas de Busca na Internet - Nacionais e Internacionais

Revistas

 

Professora ''tia'': um ato falho na escola

Prof. Maurício Apolinário


Algumas escolas adotam e permitem o tratamento de professoras pelas crianças por "tias", o que é um erro enorme, prejudica o desenvolvimento da maturidade dos alunos, cria um vínculo entre professora e aluno que não contribui em nada com o ensinoaprendizagem, além de fazer com que as educadoras percam a referência do nome e o seu valor como pessoa. Paulo Freire (1997) afirma que "a tarefa de ensinar" não deve transformar "a professora em tia de seus alunos da mesma forma como uma tia qualquer não se converte em professora de seus sobrinhos só por ser tia deles. Ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco".

As professoras e professores em geral não têm nenhuma relação de parentesco com seus alunos, pois a sua tarefa na sala de aula é o ensino-aprendizagem. Professora não é parente de aluno, ainda que, em certas situações, o seja por consangüinidade. Dizer que acha importante este singelo nome como forma de aproximação com o aluno é uma mera ilusão. A aproximação entre professor e aluno é conquistada por meio do diálogo na sala de aula, do respeito um com o outro, do chamar pelo nome. Esse negócio de "tia" tem muito a ver com essa psicologia barata de ratos de laboratório que nada entende de Educação e vive se intrometendo na vida da escola. Não me refiro aqui aos psicólogos que atendem em seus consultórios e muito menos àqueles que trabalham como psicopedagogos nas escolas.

Refiro-me, isto sim, aos teóricos que geralmente nunca pisaram em uma sala de aula e acreditam que entendem e palpitam sobre o relacionamento entre professores e alunos.

Para Paulo Freire (1997), identificar professora com tia "foi e vem sendo ainda enfatizado, sobretudo na rede privada em todo o país, quase como proclamar que professoras, como boas tias, não devem brigar, não devem rebelar-se, não devem fazer greve". Para completar, muitos pais possuem a mentalidade de que a escola é a responsável pela formação de seus filhos. É o velho ditado: "Sou eu quem paga o seu salário". Segunda uma professora, respondendo a entrevista de uma pesquisa, "o aluno não é cliente, ele é a essência da escola, é humano e tem cidadania".

Segundo o educador francês Bernard Charlot (2003), "no Brasil, o saber deve ter efeitos emocionais para ter valor. O lado afetivo do saber é muito valorizado, por isso algumas professoras têm grande dificuldade em deixar de ser "tias". Na França, a escola é mais uma instituição. Lá a professora não é "tia". A escola realmente é uma instituição, e deveria ser encarada como tal em nosso país. Caso contrário, se os pais repassarem à escola a responsabilidade de educar seus filhos, substituindo sua tarefa diária em casa, os professores deixam de ser professores, conforme o desabafo de uma professora da rede estadual paulista, falando sobre o papel dos professores: "Não são formadores de opinião.

São babás" (Revista Educação, 2007: 54).

Professora "tia" é, portanto, um ato falho na escola. Nossos profissionais da Educação necessitam se posicionarem mais firmemente e se valorizarem diante dos governantes, da sociedade, dos alunos e diante de si mesmos. Desde que sejam realmente professores.

 

Referências Bibliográficas:

CHARLOT, Bernard. "Saber + prazer + tensão = escola". São Paulo: Revista EducaRede, 2003. Disponível em:
<http://www.educarede.org.br/educa/revista_educarede/especiais.cfm?id_especial=37>. Acesso em: 14 jun 2007.

REVISTA EDUCAÇÃO. "Carta além dos muros". São Paulo: Editora Segmento, 2007, nº 122.

FREIRE, Paulo. "Professora sim, tia não". São Paulo: Olho d’Água, 1997.

SILVA, Messias Antônio da. "A ESCOLA SAGARANA: uma ruptura com a concepção da Qualidade Total, anteriormente implantada na Escola Estadual Padre Eustáquio?" Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do Título de MESTRE EM EDUCAÇÃO à Comissão Julgadora do MESTRADO EM EDUCAÇÃO, da PUC-Minas.

Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2002.

 

Sobre o autor:

Maurício Apolinário
é pós-graduado em Gestão de Pessoas e em História do Brasil, e licenciado em Letras. Escritor, tem publicados os livros: "A Arte da Guerra para Professores" (Pedagogia); "Bolinha, Meu Coelho" (romance infantil);"Um Prato de Comida" (contos) e "A Verdadeira Luz" (ensaio).

Iniciou-se no magistério em 1979, tendo atuado na rede estadual em Goiás e na rede particular de ensino em Brasília, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Atua desde 2004 como Analista de Projetos da área pedagógica no Ministério da Educação.

É palestrante, conferencista e consultor educacional.

Sites: http://mauricioapolinario.sites.uol.com.br/educacao - http://www.mauricioapolinario.recantodasletras.com.br
Blog: www.mapolinario.zip.net
Artigos: http://artigos.com/artigos
E-mail: prof.mapolinario@gmail.com

 



Matéria publicada em 01/09/2007   - Edição Número 97