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Editorial:

E mesmo com o frio do inverno, loucas estações se misturam, ainda a Poesia aquece nossas vidas de incessantes imagens. Também presente na prosa poética ela viaja, atravessa mares e aporta em nossas praias virtuais. Tanto por fazer, graças a Deus o tédio é palavra que a poesia não conhece.

Jurema Barrto de Souza & Zhô Bertholini



manhãs de domingo

há um velho trem
a percorrer nas manhãs de domingo
os caminhos por onde andei
na minha infância que se foi
embarcada em seus vagões

no apito da velha maria fumaça
me deixo levar trilhos afora
toda vez que ela passa por aqui
e desperta o menino
que ainda corre, pés descalços
atrás de tantos sonhos
dentro de mim

Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”



A Chuva

A chuva cai lá fora
É tranqüilizante o efeito do barulho
Das gotas batendo no telhado
Escorrendo pela calha
Caindo no chão
Se esvaindo em pequenas enxurradas para os ralos, calçadas, esgotos...
O dia passa, tudo segue seu curso natural
É interessante observar
O sol nasce, o vento sopra, as folhas das arvores caem
O sol começa a ficar mais forte, mais intenso
Pessoas acordam, pessoas dormem, pessoas morrem,
Pessoas matam, pessoas choram, pessoas adoecem...
Tantas pessoas... tantas ações...
E minha vida segue, sempre ociosa
Sempre ociosa... como sempre foi
E provavelmente sempre será
As chuvas passaram, mas não despercebidas
O sol nasceu e se pôs varias vezes, mas não despercebido
A lua passou por todas as suas fases varias vezes, mas não despercebida
Acredite, mesmo você pensando que simplesmente passou
Alguém percebeu
Alguém te notou
Alguém te olhou
E esse alguém provavelmente ainda lembra de você
Mesmo que tenha sido há anos atrás
Mesmo que você não se lembre
Mesmo que você não esteja mais aqui
Nada passa totalmente despercebido
Alguém sempre nota...

Jeanine Geraldo
São José dos Pinhais

 



Porcelanas

o pires sustenta a xícara
se movido
moverá o universo
se universo se perderá no branco

uma formiga peregrina na parede
em um passeio marcial
carregando o infinito em suas patas

Edson Bueno de Camargo

 



Texto 7

Absorves incessantemente
                                  o estrondo crepuscular dos reversos da papoila negra porque circulas nos anéis ramificados da língua inextinguível
                                                             e para cativares as aldeias delicadas da sincronizada boca
                         desordenas as sacudiduras das bermas
                                                                                 simplesmente inchadas
        sobre as breves gerações das investigadoras terrestres
                                        que emendam a multiplicidade solene das amoras ao longo da inocência dos ombros conquistados ao estuário do silêncio
Triunfas imprudentemente
                                 nos pavilhões manipuláveis do mar
                                                     ao rolares na exalação íntima do restolho
                                               onde a destreza do espólio das víboras alinha as parteiras soberanas do mistério 
                             às cadências científicas dos tragos
                                                                                  inversamente aflorados
                                    protagonizando a disponibilidade do gancho de fogo
                                         na transparência dos bastidores dos andamentos
                     como as controvérsias dos vimes rendilhados a prosperarem no alcance mais espreguiçado da marcha solar
                  e numa vela engrinaldada de borboletas a fertilidade dos cumes estende-se
            preguiçosamente
                         sobre as personagens adaptáveis da locomotiva corcovada
         que coincide com as aspas aborígenes dos pavões perguntadores das exposições dos cata-ventos
         que coincide com as imperecíveis bailarinas construtoras
                                   dos termómetros circulatórios dos corações imperiais
            O ferrolho eléctrico dos pássaros dissolve as manobras duradouras das confidências
                    que amadurecem os indicadores beligerantes dos terrenos onde as laminações desenfreadas dos olhares pontilham as jardas do silêncio
                                                            ao desenrolarem-se indiferentemente nas cópias linguísticas dos saracoteios solares 
                            Aqui as consequências invisíveis das pálpebras localizam os desígnios das transgressões
                                     porque metralham obedientemente
                                                              os caracóis de ar nos estratagemas equivalentes às ataduras das lâmpadas
                                     porque os espadachins dos olhos abismados 
                                                   transpõem a folhagem indistinta das águas para listrarem o coral gesticulante doutros olhos

 

O movimento embriagado das projecções contraria o sazonamento
                                                                                 da circunspecção dos dedos
                                          onde a coadora do filão ardiloso pousa na dança interior da chama
                   e as construções estreitas das ervas estremecem nas falanges da simultaneidade
                    que incentiva a improvisação das triangulações
                                                                       nos demonstradores da nudez
                              Assim os vestidos sereníssimos das arpoarias lubrificam  harmoniosamente os recantos do equador das colheitas
                                  onde principiam os palpites das miniaturas dos astros
                                                     formando nas cavilhas infinitas do sangue a comunicação lenhosa da rosa
                                            para atingir o burburinho afinador das vespas desconfiadamente acoguladas nos semicírculos da luminosidade
                                                                           que prontamente assentam na perfeição bandeada dos arados 
                                 Assim o estriamento solar possibilita a transcendência do pássaro no ultimo jorro da baleia
                                   como a furtiva lantejoula do sabugueiro a desarranjar o frontispício das quadrilhas da florescência
                          é aqui que as goelas de febre tropeçam propositadamente para embalarem as descarriladas clareiras no álacre das línguas            
                        A sequência da terra derrama-se na perspectivas das poses 
                           onde a lixiviação das infecções assobia nos desequilíbrios da maturação dos suburbanos tentáculos
                                   para emboscar os alimentos dos insectos fulgurantes
                                                                     sobre um pincel de julgamentos repercutido obsessivamente
                                     pelo estrépito global das nódoas citrinas
As atiradeiras vegetais chuchurreiam as negações dos caminhos sombrios
                                                    que compensam a brevidade dos azulejos nas ultimas gavetas do icebergue
                                              descontraidamente intercalado
                                                   nos calendários petrificados do relâmpago que estabiliza a abertura pacífica da salamandra reconstruída
                                               pelos impacientes núcleos do originário púbis
                              A voracidade das vulvas transparece na unidade infinita das caudalosas línguas
                             como a presença das variáveis cintilações
                                                 a reunir a profundidade dos arcos ciumentos na plenitude das bocas
                           que soterram as ondulações das cúpulas
                                                              na respeitabilidade do abrasamento
 As costureiras rapidíssimas da noite pavimentam fielmente
                                         os cofres interlocutores dos esquálidos cativeiros
                  que recebem as rupturas das levadas indizíveis
                                        onde a interrogação central das luzes enfeita-se de ilimitados arabescos sobre os desafios misteriosíssimos das moradas
                                  Os arroubamentos das flores unificam-se finalmente nas encruzilhadas arroxeadas dos imaculados pirilampos
                                   Provavelmente as vírgulas das águias desabrocham nas persianas microscópicas da claridade
                     que enclausuram as averiguações incompatíveis dos chilreios nas gargalhadas das reinventadas tangerinas do fogo
Sinuoso muro de ameixas visivelmente aberto
                                                       nos açodamentos dos lábios inabaláveis

Luis Serguilha
Portugal



Matéria publicada em 01/06/2007   - Edição Número 94