Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka


Bem-vindo(a) visitante 18586299, 06/09/2010 • www.kplus.com.br


Busca no Kplus

Digite um assunto específico que deseja encontrar no site

Matérias

Serviços

Mais de 70 Jornais Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Revistas Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Museus do Mundo
Programas de Busca na Internet - Nacionais e Internacionais

Revistas

 

Editorial:

A Revista A Cigarra esteve presente no VI Festival de Inverno de Paranapiacaba com o Projeto Ler & Falar Poesia, no dia 22 de julho de 2006, "De onde se vê o mar", nesta página alguns dos poemas lidos pelos presentes  e pelos coordenadores Jurema Barreto de Souza & Zhô Bertholini, que lançou seu pequeno (grande) livro "CÉU SEM DONO" - 100 TERCETOS.

Foi uma experiência singular que desejamos partilhar com vocês.

Jurema Barreto de Souza

 

"Carrego o silêncio, o dorso do mar
"Tupi  or  not  Tupi?"
Tupiniquim jasmim,
"eis a questão"...
Coração criança: início e fim.
Minhas veias amarelo ouro
amarelo tempo coberto de fumaça
fogo, fog como o do corpo de meu Pai,
eu, filho esquecido, nem o conheço..."

Célio Robusti – "De onde se vê o mar"
edição do autor – SP – 1997

 

 

CAIS

O gesto de partir nada tem de mágico.
Os mares que percorro são profundos
e as noites que miro são escuras.
O barco que me leva, busca um porto
onde eu possa germinar silenciosa.
Os faróis mal iluminam os recifes
e vez por outra um tranco me sacode.
As garrafas de gim estão vazias
e a lucidez me espreita nas balsas
que procuram náufragos e bêbados.
A manhã vem rompendo macia
na boca e nos beijos de uma muIher
saindo das conchas dos sonhos.
O gesto de partir nada tem de mágico.
E ancorado nuns braços
em meio a tormenta, fico.
O gesto de ficar é mais fascínio.
Ah! Quanta ventura em jogar a âncora
e ir ficando, no teu corpo, ir ficando…

Jurema Barreto de Souza

 

 

OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Mário Quintana
O Aprendiz de Feiticeiro

 

 

A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Vinícius de Moraes
Vinicius em Portugal
Festa. 1969

 

 

Quarto soneto de meditação

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Vinicius de Moraes

 

 

Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Cecília Meireles

 

 

I. O INFANTE  

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 

E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo. 

Quem te sagrou criou-te portuguez.. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa 

 

 

X. MAR PORTUGUÊS  

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

                 

 

Braço de Mar         

          O mar é sempre maior
          e o luar lhe faz a corte
          não há medida do homem
          entre a praia e o horizonte

          O mar já veio antes
          da onda inventar o tempo

          É ele quem trai o porto
          e ascende o pavio da bomba
          que puxa a noite do poço
          e corta   os pulsos da sombra

          E mesmo no sol, o mar transa
          seu jogo de conveniências
          suas algas postas de molho
          sua escultura sem cabeça 

          O mar é sempre começo 

Nei Duclós
(No mar, veremos. São Paulo, Editora Globo, 2001).

 

 

CÂMBIO

o mar
não tem margem

você está
sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte

e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar

Ronald Polito

                                

 

SONETO DE ABRIL

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

Ledo Ivo

 

 

Temporada


Um pássaro sem rosto, um pelicano,
caminhava sobre o mar, esfregando
seu frágil corpo de ave. A sua carne.

Esfregando seu corpo, por vaidade.
E não o viam, ou o sabiam como,
ou de onde seria o cair de sua tarde.

Caminhava sobre o mar, sem rosto.
Arrancando carne do peito, posto
fosse esse o seu dever. Seu sangue.

Arrancando carne de seu peito,
(não sendo mais que obrigação
ou algo que qualquer pelicano
teria feito) voltava de seu mar.

/ Para sempre a sua função /

Nunca nada mais que outro
não teria feito, não. Sem rosto
caminhava sobre a margem.

/ Nunca nenhum horizonte,
bem que o mar fosse todos /

E para além de nenhum rosto,
No vermelho da tarde, do sangue, da carne,
Arrancara alguma maquiagem.

/ Logo lavada pelo mar, sua função. Por sua
margem. Por sua própria impossibilidade.

Eduardo Lacerda

 

O Mar da minha Terra


O Mar da minha Terra
               não erra
mais.
Há sempre um incômodo
de silêncio em cada
Cais.
Esse Mar da minha Terra
        que nunca foi Vela
               antes.
Mas espada-vibrante
        no ar.
Antigo pesadelo de sangue
alucinado pelo próprio
        Mar.

O Mar da minha Terra,
onde vislumbro
           mudo
Ondas e barcos e gotas de espuma
E Cascos e ca-cos-de-his-tó-ria
          confusos.
Esse Mar da minha Terra
que sou eu já hoje
cicatrizado,
          tecendo uma nova história,
reconstituindo o poder do Verbo
sonhado.
Mar de lutas perdidas, gentes vencidas
          na recordação,
Mas o Mar que se agora
cala para o anúncio da futura
         comunhão.

Fábio Frohwein / Salvador/ Bahia

 

 

Flor do Mar

És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afecto
As dormencias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas
Acres aromas de algas e sargaços...

Cruz e Sousa

 

 

BANHISTA

Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)

Carlito Azevedo
Do livro: as banhistas, Editora Imago

 

 

amar-te no mar

sou coral, calor

apareço nos mares em avermelhado e luz
e tua aura, em verde e azul,
turquesa

cor de pedra sagrada,
és a água limpa e calma onde me banho,
coral, gata,

que quer tua luz serena
para ser sorte e pedra d’água

em espontânea coragem e comunicação etérea
de palavras, sons, imagens,

respirar-te

Cristiane Grando

 

 

Ser

Sou como o mar
imenso e profundo
a leste sou quente e brava
a oeste sou fria e perigosa
ao norte sou morna e triste
ao sul sou alegre e transparente.
Ou serei o contrário de tudo isso?
Vítima de uma geografia esdrúxula.

Sou como o mar
como o mar eu ofereço as minhas bordas
a quem quiser se divertir
mas poucos se aventuram a ir
nas minhas profundezas
a escutar a sereia que canta em mim
Ou será o contrário de tudo isso?

Sou como o mar
que abriga inúmeros seres
que pode tragar alguém mais ousado
mas que para viver precisa da água dos rios
da doce água dos rios pequenos e grandes
que se juntam para abastecê-lo
Ou seria o reverso desse verso?

Sou como o mar
plácido mar
mas... não um mar em português
sou um mar em francês
- no feminino
É assim que eu sou.
Sou?

Ana Terra
anaterra@hotmail,com

                         

 

MAR FECHADO

Por frestas,
toco a luz que se escancara
para além destas treliças.

Por farpas,
tenho gotas de oceano
e sede, e sede,
e sede.

Edival Perrini

 

 

O Poeta Marítimo

A noite vem de Bornéu
Clotilde se enrola no astracã
A tempestade lava os ombros da pedra
O grande navio ancora nos peixes dourados
Um menino serve-se da história de Robinson
Alguém grita
Pedindo uma outra vida um outro sonho
Um outro crime
Entre o amor e o álcool
Entre o amor e o mar.
Ouve-se distintamente
O respirar das hélices
O céu inventou o vento
A sereia enrola o mar com o rabo.

Murilo Mendes
Os Quatro Elementos (1945)

 

 

BATISMO

Fazer-se ao mar
como quem se joga num abraço,
e respira.

Edival Perrini

 

 

Dormentes Molhados

curva ferroviária
pedras molhadas de garoa,
neblina branca, serra úmida
mata atlântica primitiva

cravada na rocha, como uma cidade fantasma
ponte ligando vilas,
a plataforma espera
o relógio marca a nova era
no limiar do século (XIX)

Edson Bueno de Camargo

 

 

No Passado

ata
minh’alma no passado
ave
vento
água corrente
ferro, ferrugem
neblina e frio

Paranapiacaba não tem formas esta tarde
os trilhos me levam para o vazio

Edson Bueno de Camargo

 

 

Lição da água

I

o
mar,

fêmea
possessa.

sua fala
de suave

lâmina
abissínia;

o ritmo
ondulado,

que flui
em espiral;

a precisão
especular

do teatro
aquático;

o secreto
pugilato

que sulca
as rochas.


II

o
mar,

leoa
furiosa,

ensina
ao poeta

sua arte
plumária;

a dança-
escultura

das vagas
incessantes;

a pulsação
do poema,

seus ciclos
menstruais.

o
mar

ensina
ao poeta

sua arte
sem arte.

Claudio Daniel
(Poemas do livro Yumê)



Matéria publicada em 01/08/2006   - Edição Número 84