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EDITORIAL

Por aqui tem chegado muita poesia de várias partes do mundo e de mundos variados, cada ser um universo paralelo que percorremos e deixamos no espaço para serem partilhados e desvendados. As folhas do Outono caem, mas ainda há muitoas flores por toda a parte, o mundo mudou,mas a poesia nunca nega sua frutificação. Jurema Barreto de Souza.

Las flores negras


Rosa de rosa, idéntica y sensible;
a tu ejemplo, profano y mudadero,
el poeta hace la rosa que es terrible.

Martín Adán

La flor amarga que es figura esbelta
Está pariendo a su hijo el esperpento
Aquel que erigirá en el propio llanto
La flor que será la materia muerta
 
En el viaje infinito que es la vida
De ave negra hacia su agujero blanco
Que está suspendido al viajero manco
El creador de flores y de vida
 
Protector de los valles siderales
El juez de las estaciones. Naciente
Invierno que eres padre de las flores
 
Las muertas en el pecho crepitante
Del juntador de naves y de piedras
Aquel que será madre de las hidras

Salomón Valderrama Cruz
Lima - Perú

 

PORTUÁRIA

O estivador sem sono,
O matador encachaçado:
mil anti-heróis
Permeiam entre as damas
Sedentas de grana.

Estranhas silhuetas
Abraçadas na sombra
Da velha embarcação:
O êxtase noturno
De insones pescadores.

Madrugada sem fim
E a noite vem visitar
as mal dormidas musas
Deste inferno luminoso,
Ilusório e inescrupuloso

Onde os anjos não ousam entrar
Porque os sonhos correm lentos
Sem dor nem pecado
Neste céu impossível
De marujos sonolentos.

Carlos Antonholi
in O Homem Fragmentado No Balcão
São Bernardo do Campo, SP -Março/2006

 

MONTA GENS

Sou feito de vidro.
Sou mil cacos colados.
Sou um vaso rachado
caído da cama
acordado
e cortado.

Me quebro tão fácil.
Estou todo quebrado.
Mas sou quente
e sou sempre
e me moldo
e me faço
e me finjo
de barro.

Tomo a forma que eu próprio
escolher em um sopro

ou um passo.

Renan Nuernberger

campo-santo

longe
nas franjas do horizonte
para lá das montanhas e dos morros
a cidade estranha aonde os moradores
calados quietos vão chegando aos poucos
entre velas e flores

são deixados
com muita cerimônia
no pequeno espaço
a uns sete palmos
abaixo do chão

Líria Porto

 

Letania

Triviales vidas humanas,
elocuencias solapadas,
rostros marcados por,
las huellas de caminos,
fieros en espinas de,
tristesas, no confesadas,
y remordimientos oscuros.

Espera del olvido,
distancia infinita que
adormece corazones,
sentimientos,
ocultos y valdio.

Ensuenos, largos y pasados,
en el infinito.
valiendole a la vida,
El peso de sus hijos,
queridos.

Vilma Silva

 

ETAPAS

Da primeira vez em que eu te vi,
Tinhas o gratuito da beleza em preito aos desejos.
Por mais que fossem os meus ensejos,
Permaneciam, apenas, no fortuito de um olhar aceito.

Eras jovem e esplendorosa, inocente e atraente.
Colidias com os limites da razão, bailavas nos desavisados da emoção.
Chamados e recados que a verdade assim não deu,
Numa felicidade em que o destino nunca quis.

Da segunda vez em que eu te vi,
Estavas sob muitas chaves e entraves, mas continuavas bela.
Era como se o tempo te houvesse esquecido em tela,
Apesar de a idade não fazer pela metade.

Frentes de vidas diferentes, caminhos que não celebraram.
Zelo, respeito e família, que são a vigília do bom proceder.
Sonhos que foram pedidos, sonhados e perdidos.
Presente que não mais permite olhar para trás.

Da terceira vez em que eu te vi,
Contudo do nítido de ti,
Teu olhar era um pouco triste e comedido,
Não havia o brilho daquele confiante vivido.

Mesmo assim, nesse ameno vestíbulo do fim,
Vendo os teus cabelos brancos e o teu sorriso agora pequeno,
Não me entristece tanto, tampouco aceno ao desencanto.
Solitário, sempre fiquei e, no solidário, sigo os teus passos também.

Arnaldo Massari

 

bailarinas

essas bailarinas que dançam
no meu trajecto de comboio
em todas as manhãs
estão nuas e são nuas
e bailam ao sabor das intempéries
e não se constipam
mas quando morrem
simplesmente morrem
e há lirismo na sua morte
porque caem de pé
e são etéreas.

Será que existe um céu das árvores?
Ozias Filho – Brasil

 

A NOITE URBANA

Brilham no vento as luzes vigilantes
dos candeeiros públicos,
fogueiras
para as noites húmidas,
agitam-se as cortinas
de janela que tosse,
enquanto dois vultos
se esquivam enlaçados
aos últimos olhares,
entre as varandas dos prédios
há quem procure
num quarto nu a intimidade.

 João Tomaz Parreira
 Aveiro-Portugal - 2005

 

der blau Angel

agonizo em gastrites

                        entre as pernas de

                                   marlene
                                                           lola-lola

                        um (me)
                        sal vê

                        aos anos mortos
                        um a) deus  (a              de

                                   ju (
                                   vir) ven(
                                   tu
                                   de)
                                   de

                        u m c r e m e – b e i j o
                        um lânguido         agudo
          vão             e n t r e
          pernas    -de-    Marlene

                        derramo-me
                        semente entre
                        as pernas de Marlene

                        sou criança
                        nos peitos de lola
                        a voz que foge
                        gramofônica

                        hipnose nos o(l)vidos
                                      u
                        anos 20 ou 30 ou sempre
                        um século (de) aos gozos

                        e n t r e
    – p e r n a s – d e – m a r l e n e

Donny Correia

 



Matéria publicada em 01/04/2006   - Edição Número 80