O mundo hoje parece tão pequeno,
puro engano, ele continua imenso e de toda parte chega poesia que amplia nossos espaços,
nossos horizontes se tornam uma galáxia de idéias e pessoas que sentem e partilham.
Globalizar, palavra tão "moderna", outro engano. O homem vem desenvolvendo este
processo desde de a criação do alfabeto, tudo começou com o pombo correio, ou os sinais
de fumaça? O que importa é conservar a magia e o mistério do ato criador.
2.227 - Soneto Altissonante
Barulho é o que se faz na
poesia,
de dentro para fora do poema.
Se não for ruidoso o próprio tema,
a forma desafina a melodia.
Se o atonal virou monotonia,
resolve-se na crítica o problema.
É só polemizar, com tinta extrema,
se a pança deve estar ou não vazia.
A fome, última instância do organismo,
define o decibel do belo artístico,
que vai de zero a dez em ativismo.
A coisa se resume neste dístico:
Mais pintam de fatídico um abismo,
maior seu interesse e grau turístico.
Glauco Mattoso - in GELÉIA DE
ROCOCÓ -R: Morgado de Mateus 158/94 - 04015-050-SP -SP
se não mando a flor
mando a flora
se não mando a flora
mando o jardim
se não mando o jardim
não mando o meu olhar
se não mando meu olhar
não mando meu espanto
e o meu espanto
é a minha assinatura
Jovino Machado - in SAMBA -
Orobó Edições -R: Pedra Bonita 1262/301 - 30430-390 -Belo Horizonte-MG
te armadilhei em mim
capaz
paixão voraz
colombina arlequim
te amei em mim
beijei-a
tateei-a
iracema curumim
te conquistei em mim
conquistei !
conquistei .
trapezista mandarim
Marcelo Montenegro -Av.Paraíso
762 - ap. 6 -B.Olímpico - 09571-200 - São Caetano do Sul-SP
Dimensões
1.
A palavra me comove
quando em si quase se move
a minha intensa emoção
2.
A palavra me alucina
quando em si quase declina
o verbo inerte em ação
3.
A palavra me assusta
quando me revela na busca
de um assustado perdão
4.
A palavra metaforiza
minha face que ruboriza
o desejo do coração
5.
A palavra me apalavra
quando dispara sua garra
direto em minha direção
6.
A palavra me acalma
quando dita a minha alma
a sua infinita atração
7.
A palavra me é grito
quando desesperado imito
as dores de sua dimensão
Jota Marinho - R: Hélio da Mata
Souza Bloco 10 - ap. 12 - 09180-080 - Santo André- SP
Cansei
Cansei
cansei da solenidade, da formalidade
da metáfora.
Cansei da mão guardada por dentro
e daquele gesto medido, comedido.
Mudei de opinião. Acerca de quase
tudo:
pessoas, obra de arte, vida, profissão.
Não quer dizer que fiquei melhor,
nem pior.
Fiquei diferente.
Conservei as aparências, o mesmo
trabalho
cotidiano, a mesma casa, os mesmos
horários,
a mesma cidade.
E a vida continuou
subterrânea
vital
líquida corrente
ainda que seu percurso de carne e
argamassa
congelasse a superfície.
Ainda não sei se sou radical.
É a única questão a resolver.
Quanto ao resto, amigos,
mudei
como se muda a vista breve de uma manhã
ou a arquitetura de um vôo.
Neide Archanjo- R: Carvanine
20/101 - 22261-160 - RJ-RJ
Herege
Tochas acesas, palha ansiosa
aos pés deposita o carrasco.
Estou aqui entre inquisidores
que satirizam minhas hasteadas,
incômodas e torturantes bandeiras.
Tochas crepitam vulgares
fogo ateado aos mastros
machados perdem o fio
e não se partem os brasões.
Indefesos matadores de ideais!
Conformai-vos, diante da minha
tão incoveniente imortalidade.
Depressa, a tocha.
Quero ser cinza
impregnando pulmões, turvando olhos.
A cinza é livre. Serei cinza.
Ainda tremula invisível bandeira.
E meu coração aprendi a manter
ileso, como o de Joana DArc
depois de apagada a fogueira.
Jurema Barreto de Souza- Santo
André- SP
Livro de Amar
Há um tempo lá fora
que me interpela a pulso
e me reclama os gestos.
Mas se reacendo a chama
da indiscreta lembrança
das flores que pensei ofertar,
me restituo aos livros
e simulo esquecimento.
-Refém da retórica das histórias,
o amor aprisiona-me em páginas...
Francisco José Lins do Rego
Santos
R: Carangola, 241/ap. 402 -Santo Antônio - 30330-240- Belo Horizonte- MG
Digital
todo dia ela me chama
pelo nome
pela fome
pelada ela é mais ela
e eu sou mais seu,
um santo desgarrado
sem antecedentes,
mas fichado,
devidamente fichado
Zhô Bertolini- Santo André- SP
daqui por diante
vou ficar mais exigente:
só vai ser príncipe
o sapo que eu invente
Beatriz Azevedo- in
Peripatético - SP- SP
na parecência
dos dias
o eu
reflexo
ressurge
mais almo
feitio
de quem se deixa
esquartejar
pelo gume
da palavra
João Antonio da Silva Sampaio -
Santo André-SP
Matéria publicada em 01/04/2000
- Edição Número 8
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