Embora não haja dúvida sobre a necessidade da Poesia, me pego pensando no eterno questionamento do porquê escolhemos o poema como forma de expressão? A Poesia está em variais artes, mas o poema nos alisa, nos acaricia ou nos incomoda enquanto não o colocamos no papel, fica sussurrando ou gritando em nossos ouvidos durante o sono, na fila do banco, no supermercado, durante nossos trabalhos ou nos momentos de lazer.Ele não se cansa, não descansa até que o abriguemos entre nossos escritos. E depois quando menos esperamos surge outro, uma legião de palavras querendo ser escritas, nos expondo, revelando nossos sentidos diante do mundo. Enfim, existem destinos dos quais não se foge.
Jurema Barreto de Souza
Desistência
Como a cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se em paralelos.
Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro /
: o ódio
Encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
Como há cama a pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se em paralelos
Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro /
: o ódio
Encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre ossos
que é a vida quem nos indaga:
Ainda haverá sangue?
/ a tristeza é que
na vida não se pode
como no jogo
o roque. /
tanta carne sobre ossos
que é a vida quem nos indaga:
Ainda haverá sangue?
/ a tristeza é que
na vida não se pode
como no jogo
o roque. /
A última Ceia
Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.
/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda
dos pais.
Restos do pequeno
que sentavam ao meio
da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /
Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.
Eduardo Lacerda
eduardolacerda@mandic.com.br
poeta paulista, aluno do curso de Letras da USP e
editor da Revista Metamorfose e
do Jornal de Poesia “O Casulo”.
Prepara seu livros de estréia “Outro dia de folia”.
Silêncio
Procure ouvir o silêncio
das palavras que calam.
Aquelas que falam
segredo nenhum detém.
Porém maior poesia tem
o som não pronunciado,
mas no olhar revelado,
do amor que se faz refém
Cleuza Matos
Miçangas
Eu bordo a vida
e abordo um sonho.
Com miçangas coloridas
Transformo o cinza em flores.
u bordo um sonho
se abordo a vida
Com miçangas coloridas
Dou sombra ao meu deserto
Eu sonho a vida
e bordo estrelas
Brilham na noite, inseguras,
como miçangas num céu de tule.
Cleuza Matos
São Paulo-SP
Você
Às vezes, eu sou você
E converso comigo, nós dois
E choro contigo, e me consolas
E sorrimos muito, eu comigo
E não me explico
E nem me convenço...
Soluço, madrugada, penso em mim
E minto muito,
Aliás, sinto muito
Mas tenho que sentir teu gosto em mim
E o perfume do teu rosto...
Às vezes, eu sou você
E magôo e me calo, silêncio
E teus calos doem em meus pés
E tuas dores me corroem...
E paro e penso e desisto
E tua covardia sou eu, pois sou você, às vezes
E por vezes, beijo meus lábios
E me sufoco com meu próprio abraço
E me ignoro, passo e não aceno
E te vejo no espelho do meu quarto
E me encontro contigo, sozinho...
Às vezes, eu me perco e me esqueço
E estendo sua mão que é minha, a mim
E sinto que eu sou você, frágil, orgulhoso
E ainda assim insisto...
E te procuro, silencioso
E te encontro em mim, quando me olhas...
Acho que vejo por teus olhos
QUE estais no céu e nos mangues do Beberibe/Capibaribe
criando incessantemente todos os Oceanos.
Santificado seja vosso nome em lume
das filhas e filhos do Espírito Santo.
Venha a nós o vosso reino de justiça, paz e liberdade.
Seja feita vossa/nossa vontade assim na terra, no mar,
nos ares pelo fogo das pulsações transformadoras.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
muito além dos circos televisuais.
Perdoai as nossas ofensas assim como perdoaremos
aos que nos ofendem, enganam, roubam e se esquecem.
Não nos deixeis cair em tentações do Mercado
de todos os feitiços e fetichismos.
Livrai-nos do MAL e dos bens provinciais,
além das 2005 celebrações do neon-armorialismo.
Agora e na hora de nossa Morte e de nossos mortos sacrificados
cotidianamente sob os signos da VIOLÊNCIA.
Jomard Muniz de Britto
Recife, out/nov/2005.
Matéria publicada em 01/11/2005
- Edição Número 75