Chega a Primavera entre vendavais bombas e
corrupções, mas pelos meus cálculos, se somarmos os grandes poetas e os que
estão chegando, os que se arriscam e dão a cara à tapa e os que por correrem o risco
já são grandes, e compararmos com este imenso teatro de calhordas, o mundo
ainda está salvo.
Jurema Barreto de Souza
Sobre a dor
Não choro,
grito menos ainda.
Somente a dor
percorre minhas veias
como se fosse sangue.
Não penso,
falo menos ainda.
A dor amortece as palavras,
embriaga os pensamentos.
Escrevo apenas.
Sem fingir que é dor
a dor que sinto.
Não nego,
a dor alimenta
e suga minha alma,
numa troca incansável.
Sou sua escrava,
mas não grito.
E choro menos ainda.
A própria dor me consola.
Izabel Bueno
Uma Experiência
Exaltação do branco
assepsia, silêncio
segredo do olho
armadilha, leveza
Mallarmé, talvez
um clássico quadrado
parece Malevitch
e a pintura pura
além das cores.
Almandrade
A Função de um Poeta
Eu não era tão amargo assim,
nem trazia no rosto a marca do sofrimento.
O semblante sisudo herdei por conta das tragédias.
E o sorriso de menino indefeso desapareceu de meus lábios finos.
Quando descobri verdadeiramente o mundo
esse se desmoronou sob os meus pés.
Procurei, então, nas sendas do passado:
Tude, a negra alta, que mercava fufu
numa lata de manteiga da Aliança para o Progresso,
Os cambucás doces da Lagoa Funda de Américo Carneiro,
A suave proteção de meu avô Augusto Asclepíades.
Mas tudo se esvaiu como uma névoa branca
repleta de saudades.
Canto agora a minha dor,
e sou apenas um pequeno poeta jacuipense,
num canto escuro de uma casa,
sem amor.
Miguel Carneiro in
Balada do Cangaceiro Sem Mãe
E Outras Baladas
Terça-feira
Na rua de trás há um trilho de casas irregulares.
Que se amontoam e se erguem aos sábados.
Como as vozes na igreja da garagem às terças
Como os terços que não cessam e que ecoam para o céu.
Há uma cantora lírica escondida nas roupas espalhadas
E nas crianças que brincam nas escadas.
Eu não a observo com os olhos, mas com os ouvidos.
E aprendo que não aprendi a rezar.
Débora F. Tavares
A Ganância do Império
Poderia dizer,
Flores na explosão
Mas não há flores
Nem folhas...
Poderia dizer,
Água suja de sangue
Mas não há água
Nem sangue...
Só há pessoas
Sem sangue
E sem nome!
Não há carne
Só fome!
Vejo crianças, bombas,
Motores de tanque que ronca
Trágica ditadura
Interrogatórios e tortura
Da maior nação
Que nem sequer
Jogou flores sobre o caixão.
Josanne Gonzaga
Meu nome é Poesia
É só uma pobre garota
Aquela que, na madrugada, vem
Apenas um velho e sujo vestido branco,
Pés descalços, unhas mal-feitas
Rosto entristecido, lágrimas constantes
É um fantasma que vaga perdido
Que vaga, devagar...
Tem as mãos cortadas,
E o sangue, mancha-lhe o vestido
Mas não mostra dor, nem aflição
Mostra tristeza, mas dor não sente
Parece cansada, estende-me a mão
E fujo e ignoro e rezo pra que suma
Mas ela não me deixa...
Tenho medo, mas não sei porque o tenho
Ela não ameaça, não diz nada, não sorri...
Fica ali, parada...
Hoje, não rezei pra que sumisse...
E segurei a mão que ela sempre estendia...
Estava fria, suja e machucada...
Mas era confortante, passava-me Paz.
Perguntei-lhe o nome,
E ela que nunca havia dito uma só palavra
Respondeu com um leve sorriso:
Meu nome é Poesia...
E sumiu para sempre...
Agora, sou eu o fantasma
Rezo sempre pra que ela volte
Minha vida é vaga
E vago, devagar...
Leonardo dos Santos e Santos
A Medida do Avaro
Tilintar moedas
Em ouvidos avarentos,
Corrói firmamento.
Marcello Ricardo Almeida
in25 hai-kais
Matéria publicada em 01/10/2005
- Edição Número 74