No dia 20 de março de 2005, os poetas das 7 cidades que compõem a Região do Grande ABC, tiveram a grata surpresa de ter 5 páginas do Diário do Grande ABC, dedicadas a Poesia,seus poetas e atividades voltadas para sua divulgação. “Poesia Contamina Região”, lembrou ainda o Dia Nacional da Poesia (14 de março), uma satisfação da qual não pretendemos nos recuperar tão cedo. Parabenizamos os jornalistas Nelson Albuquerque ,Alessandro Soares e Everaldo Fioravante, que “costuraram” com tanto cuidado a matéria etérea da Poesia. E como disse Walter Franco: A POESIA É TUDO, O RESTO É PROSA. Até breve.
Jurema Barreto de Souza.
Cenário Aberto
Ares
De malabares
Nas esquinas
No abre & fecha dos faróis
Circo de sobrevivência
Do ofício até os ossos
Ato difícil de se equilibrar
Sobre palco de asfalto
Vagas habilidades
Dos meninos da cidade
No trânsito do dia a dia
Cativando medo ou simpatia
No ensaio das mãos
Nada de muito ou pouco
Apenas um baile de esperanças
Descolando um troco
ZHÔ BERTHOLINI
Dentro do Coração Selvagem
Não ter coração
ser um coração desenrolado
numa pessoa que se alonga
uma meia de estudante
do tempo das meias longas
que as mães guardavam
carinhosamente em nossas gavetas.
Um coração que possui
a pessoa, sua história
todos os livros e músicas
E no fim ser novamente
e carinhosamente
enrolado por mãos invisíveis
e adormecer em uma gaveta
perfumada...
JUREMA BARRETO DE SOUZA
NEW ORDER
A lagarta
em sua desfolhante
metamorfose
de dor impossível
de deter ou mesmo
lançar da própria pele
que agora já perde
quando afinal fende
a crisálida para
a última FORMA
e se reconhece
curiosa
ainda lagarta.
Ronald Polito
ROSA INDIGENA
Voz indígena
creencia del alma
superas al sonido
en gritos de esperanzas.
500 años de llantos
de aullidos
no son suficientes.
El agua
reclama su río
y la tierra se endurece
de tanta sangre.
La sed del inocente
aún busca un espacio
para respirar.
En medio del suspiro
se escucha el lamento
como un murmullo
quedando en silencio.
Nuestros dioses
aún esperan
contar con los
designios del sol
para liberarnos.
El indio desnudo
de comprensión
cansado de sufrir
la carga de la roca
de un idioma
que no habla con el viento.
Se esconde
en el verde refugio
de su herencia ancestral
y convierte al claro oscuro
de un pasado en un presente
que reclama la presencia de
su magia.
Velha vila, após a chuva com a chegada do tímido sol.
Eu brincava criando formas, semblantes e palácios em escultura de barro.
Na casa de terraço do piso em cerâmica vermelha,
Com parede de círculos vazados, via o mundo da mata infinita ao encontro do céu.
Invasão da neblina, barulho de avião, helicóptero, caminhão e passos do batalhão.
Cheiro de mato brilhante com gosto de orvalho
Vozes da infância de Rúbia, Beco, Zinho, Gina e Zeti correndo
Para catar siriri, jogar queimada, dançar quadrilha junina na quadra e pegar o Papa Vila.
Minha mãe trocava sabores e gostos em pratos com as vizinhas.
Cumbica, tão grande naquela época, e
Cheia de diminutivos do trenzinho, escolinha e fazendinha.
No amplo hangar, meu pai consertava aviões cheios de história e aventura
Que o levavam a sonhar.
Hoje, naquela morada da vila, minha família ainda se faz presente no colorido das flores
E no aroma da dama da noite.
Terezinha Aparecida Sávio,
após visita à BASP em janeiro de 2003 na troca de comando
Gozo final
Essa cara de quem goza,
Essa desfaçatez,
Esse riso no olhar e no corpo,
É louco!
Brinca com os neurônios de qualquer ser
E engabela,
Leva na lábia
Até o mulato sabido
E as moças bruscas e as lânguidas na estação
É tudo delírio
Colibri, quimera,
Cheiro de sexo no ar,
Exaltação dos corpos.
E cá passamos nós
Com essa cara deslavada
De quem
Goza.
Jeovânia P.
Acabou-se o que era doce
microbiografia de vertebrados e invertebrados
A rua do poeta é a rua
das Américas, 29.
Onde o gafanhoto se apaixona
pelas vastíssimas plantações,
e o passarinho se apaixona
pelo ninho da passarinha.
Onde a lavadeira
se apaixona pelo sabão,
e o beija-flor
se apaixona pela flor.
Se o vira-lata
se apaixona pela lata,
se o pirilampo
se apaixona pela lâmpada;
mas a primavera nem chegou.
Mas o caranguejo já se apaixonou
pelo espelho. E as formigas
se apaixonaram pelo formigueiro.
É na rua do poeta
onde as mulheres vêm sentir
arroubos de taquicardia.
É nos cabelos da vizinha
que o poeta constrói escada
e vai pelo carretel de linha.
De tão doce a paixão
quem se apaixonou
acabou-se no que era doce.
A flor do beija-flor se despetalou,
a lâmpada do pirilampo explodiu,
o espelho do caranguejo se quebrou,
o milharal do gafanhoto definhou,
o ninho do passarinho ficou feio,
o formigueiro fora atacado pelo tamanduá,
a lata do vira-lata se foi no caminhão,
e o sabão da lavadeira se acabou.
Marcello Ricardo Almeida
O QUE HÁ?
minhas mãos quando seguram
as tuas e caminham lentamente pelos
pelos do instante dizem que só
uma escolha é possível e que nem
um desejo é maior que as águas
que descem dos nossos poros cada
vez que sonhamos juntos
cada vez que pensamos um pouco
nisso tudo que não se vive à toa
com os estandartes da espera
escancarados sobre os rescaldos das
janelas abertas e sempre
sempre colhidas na escuridão de um
adro sem lua
se minhas mãos te lêem os lábios e
se por elas pouco a pouco te devoro
não sei
não sei se minhas mãos cabem no
estreito elo do teu peito
nesse covil de loba infinita que se
reparte num canto impreciso
O sereno caiu como plumas desfalecidas ao vento...
E cobriu a noite com seu manto estrelado, bordado pelo firmamento.
Luzes de outras galáxias traziam-me algum tipo de alento,
E no acalento da noite, passei a flutuar no tempo.
Por acaso, me transformei em folha...
Por escolha, virei um pensamento!
Pensei ser uma nota musical ao vento...
E ressoei no espaço do Universo denso.
Quis ser calor ardente,
Saltei como brasa de repente!
E pairei no espaço de braços e abraços,
Sendo amantes de amores dementes.
Me cansei dessa vida vadia...
Decidi ser um colibri!
Polinizei todas as flores que havia,
Em quintais e jardins que vi...
Depois de algum tempo passado,
Resolvi te perturbar um bocado...
Me transformei em recado,
Pra que você pudesse cometer por mim um pecado.
Já que morri sem saber,
O que era certo ou o que era errado...
Vou me infiltrar em você, meu bem...
Sendo seu pensamento alado!
Pensamentos oblíquos, olhares, risadas...
Intimamente colada em você vou passear.
Pessoas são como gangorras desequilibradas!
Impulsivas ou não, balançam pra lá e pra cá...
Débora Romaniello Guimarães
Matéria publicada em 01/04/2005
- Edição Número 68