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Editorial:

E num clickar de olhos são cinco anos de parceria entre a Revista A Cigarra e a Editora Komedi, chegando nas distâncias todas dos sentidos e na democrática viagem da palavra. Encontramos nos caminhos delícias como o livro “Miolo de pote da cacimba de beber”, de Lilia Diniz, artesanal e cheirando a caju, de dar água na boca, lá do Maranhão e João Paulo de Souza Mello que aos 16 anos,Aprendiz da Usina de Triagem e Reciclagem de Papel de Santo André, transforma o aprendizado em reflexão, despertando uma ponta de ternura e esperança no presente. Poetas, poetas...deixemos que cada um fale por si. Nosso carnaval é de poesia.

Jurema Barreto de Souza
E-amail: acigarra@ig.com.br

Sabor nordestino

Se me queres cajuí
desejo ser doce e raro
deixa no teu corpo o cheiro
dos cajueiros nordestinos
Desejo ser cajuína
saciar tua sede
com os beijos sonoros
dos passarinhos empapuçados
Desejo ser “pé de tonel
embriagar teus sentidos
aquecer teu corpo
com meu pequeno caju em flor

Lilia Diniz
in Miolo de pote da cacimba de beber
Davinópolis – Maranhão -2004

Reciclar para conviver

RECICLAR não é só dar vida a uma coisa morta.
É também reatar uma amizade, é perdoar quem te ofendeu, é dar mais fogo a uma paixão;
é dar um lugar ao próximo.

CONVIVER é aprender a gostar do indivíduo do jeito que ele é, mesmo que ele seja um chato;
é respeitar, dividir tarefas, respeitar o espaço do outro, não ferir um coração com mentiras
mas fazer um curativo com a verdade.

Recicle seu espaço de trabalho, se disponha a ajudar os outros ao redor de você, aprenda a conviver com as pessoas que te querem bem e que te querem mal; aprenda que a convivência ajuda a mudar a personalidade das pessoas.

João Paulo de Souza Mello, 16 anos
Aprendiz da Usina de Triagem e Reciclagem de Papel de Santo André
2004

Cordel para Rimbaud

Rimbaud Poeta Inventivo
Alquimista do Verbo Creador
"Bateau - Ivre" texto-ícone
Sinestésico pensador
No "Soneto das Vogais"
Foi  além do ego-scriptor...
O Poeta tudo pode
Ouvir, prever, traduzir...
Rimbaud de "Les Corbeaux"
Implacável a produzir
Some  aos 19  anos
Pra na África resistir ...
"Uma estação no inferno " 
Em busca de "Iluminações"
Obra-Prima geniarte
Criativas invenções
Jean -Nicholas Arthur Rimbaud
Vate de contradições...
"La rivière de Cassis"
"Memoire" transmutação
"Bruxelles" que enleva
"Ma bohème" ao coração
Rimbaud Ser Universal
Navegante da Paixão...
Nasceu em 1854
O PoetAventureiro
Morreu ao 30 e Sete
Sem amor e sem dinheiro
In.feliz e mal.tratado
Um poeta verdadeiro...
Dos 15 aos 19...
Um  Poeta visionário
Foi  mártir louco herói
Ente extraordinário
Nasceu a 20 de outubro
O grande poeta áureo...
Uma saga  atormentada
E uma vida rumorosa
Infância de livros e fugas
Entre  a espada e a rosa
Prodígio de Charleville
Renovação primorosa...
Um dos deuses da  Poiesis
Insubmisso... Ferino
Talentoso e inventivo
Daimoníaco e divino
Poeta maldito viajante
Pelas plagas do destino...
Evangelista do verso
Luciferino... Glorioso
Místico e mithológico
Nubscuro  theonebroso
Binquieto trinstigante
Almágico e fervoroso...
"Mystique", "Fleurs", "Aube",
Illuminations:   Mensagem...
Alquimagia fulgurante
Ás vidente da linguagem
Relâmpago da Poesia
Sempre em eterna viagem...
Poeta inesgotável
Criativo essencial
Luminar da invenção
Encantador literal
Um gênio devorador
Transmutador marginal...
Rebelde... Zentusiasta
Profeta e carpinteiro
Demiurgo da Poiesis
Taumaturgo aventureiro
Alquimista do  Uni...Verso
Iluminou-se por inteiro...

Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br
 

Canção de ninar Pataxó
 

dorme Galdino, dorme
treme Galdino, treme
sonha Galdino, sonha
pede Galdino, pede

que sua aldeia cresce
que sua gente vive
que seus meninos pescam
que a meninas tecem

que a floresta cria
que a manhã eterna
que o sol está presente
que toda gente amiga

dorme Galdino, dorme

Naiman - Boré
http://www.fulinaima2.blog.uol.com.br

 
La Listita de Razones

La razones sobran.
Son las dos horas
que
esperamos el 86
de noche, en pleno campo
y con ganas de llover.
Son las palabras que se perdieron
en algún diálogo sin importancia,
luego de hacer el amor.
Son las caricias
que tus dedos desparramaron
por mi espalda
cuando estaba dormido.
Son tus pasos descalzos
que no se llegaron a oír
saliendo de la ducha.
Es el quinto, sexto, séptimo
beso de la tarde.
Es la imagen de tu espalda
inclinada mientras te atás los cordones.
Es el poco de yerba
que se desperdició
mientras cebabas la tercer pava de mate.
Es el olor de la calle
que ya conocemos de memoria.
Es el momento en que Telefónica
nos regala dos minutos más
para hablar con 20 guitas.
Es la risa que se arrancó
de un comentario absurdo
acerca de Perón.
Es una flor de la calle
que fue a parar a tus manos.
Es el pesito veinticinco
que hay que juntar
para el colectivo,
chirola por chirola.
Es la espera del Domingo
o del rato que tenga
más minutos para estar juntos.
Es ver la cama desarreglada
y sentir el cuarto con olor,
es tirar el último condón a la basura.
Es verte cuando te vas
y volver quince cuadras
caminando solo.
Es imaginarte que estarás
haciendo, imaginándome
en el mismo momento.
Son los besos que extraño
cuando no duermo,
las palabras que dirías,
como dejarías sin aliento
hasta a las paredes.
Es soñarte por un instante,
espléndida y radiante,
hecha de lo que sos
de carne y alma,
y miradas y deseos.
Es saber que todo esto es
lo único que necesito :
la listita de razones
que me sobran y me obligan
a poner en marcha
este motor cansado
mi corazón,
para parir algunas palabras
que a medias siquiera reflejen
el paraíso al que me condujiste
con razones tan simples,
tan obvias, tan celestiales
y necesarias,
como esta
la de ser parte de mi historia
sin más razón
que la que se desprende
por el simple hecho
de permanecer a mi lado,
siempre a mi lado.

GITO MINORE - Fuego en el pecho
www.gitominore.cjb.net

A Trilha da Imperfeição

As deixar de lado as certezas absolutas sentiu uma leveza incomum
Não saboreava mais o gosto amargo da melancolia em sua boca
Não tinha mais o peso maciço da cobrança em suas costas
Compreendeu naquele momento impar
Que a disparidade é de uma beleza rara
E que a igualdade não é um sonho, mas sim uma prisão

Mais calmo caminhava pela rua escura
Quando olhando para o nada enxergou um movimento
Era sua alma que passeava pelo parque
Alegre e viva flutuando sobre o mar revolto
De ondas de culpas e negativismos humanos
Ao ver tão singela cena parou...
Por instantes temeu por sua sanidade
Não poderia ser tão simples...
Por toda sua vida sofreu...
Sofreu por si... sofreu pelos outros
Pelo amor, pela saudade, pela morte...
Por tantas coisas que nem lembrava mais
E agora que estava desapegado de tudo
Cabeça erguida ao céu estrelado
Uma lágrima
corria em seu rosto
Não era mais uma dor...
Nem outra forma de lamento...
Era a última gota de um sentimento negro
Que deixava de existir frente à luz
Incandescente da existência plena
Daqueles que aceitam a trilha da imperfeição
Como única rota de fuga da obsessão doente
Que é ser de tudo um pouco, ou ser de tudo um muito...
Tudo menos si mesmo

Paulo Ricardo Zilio Abdala
E-mail: pabdala@terra.com.br
Janeiro de 2005

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando
sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou
meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Viviane Mosi in "Receita pra lavar palavra suja",
.que pode comprado pelo site www.lojacultural.com.br



Matéria publicada em 01/02/2005   - Edição Número 66