Segundo pesquisas, 45% das pessoas vivem no passado (lamentando o que perderam, tendo saudades do que passou), 45% vivem no futuro (sonhando o que farão ou gostariam de fazer um dia) e apenas 10% das pessoas vivem no presente. Deixando as porcentagens de lado, viver o presente nem sempre é muito fácil, é preciso encontrar a poesia na rotina, as palavras novas para o que já conhecemos. E quando perguntam como aperfeiçoar a escrita poética, penso no livro de Carlos Drummond de Andrade "Amar se aprende amando" e penso que escrever se aprende escrevendo e amando o fazer poético. A Poesia é a mágica que consegue fazer com que, ao mesmo tempo, estejamos no passado, no presente e no futuro. A Poesia eterniza.
Jurema Barreto de Souza
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
EXTERMÍNIO
bala
com
bala
com balas
se apagam
ninguém vê
ninguém viu
no
silêncio
o
eco
sumiu
Zhô Bertholini
Memórias de um menor abandonado
Tudo sempre está aqui.
Só não sabe oque eu vi.
Eu não vi o por do sol.
Eu não vi o sol nascer.
Eu não vi o tempo vir.
Que chegou e já se foi.
E tão pouco entendi.
O porque estou aqui.
Dias curtos.
Noites claras.
Onde passo tu reparas.
Vidas cheias do abandono.
Almas todas magoadas.
Por estar e não sentir.
"O amar que está por vir."
Jean Mendler Neto
Sonhos
Me diga quais são seus sonhos
Talvez eu possa realizar parte dele
Sonhos são as chave-mestra
Que arrebata o espírito ao mais distante universo.
Nas estrelas está a luz
Que conduz ao mais íntimo e profundo...
Coração, nele o reflexo do amor
Percorrendo todo infinito,
Espalhando seu calor,
Contagiando os astros.
As estrelas do céu fazem reverência à sua majestade (você)
A lua derrama lágrimas em sua presença,
Os planetas saem de suas órbitas, apenas
Para ser contagiados por esse sentimento.
O próprio (rei) sol se inveja com tanto brilho,
A natureza se comove,
Cada animal é atraído por sua beleza,
As árvores choram folhas de emoção...
Enquanto as flores desabrocham com um gesto de humildade
Abrindo-se cada pétala, espalhando seu perfume no ar,
Os pássaros voam, transmitindo seu canto
Como a mais bela das músicas que está dentro de você.
E eu, um mero espectador,
Vou até o fim do infinito para admirar a paisagem
Para só então eu poder me desprender de mim mesmo.
Perterson Sá de Freitas
Claridez
Lá fora
a tarde estremece
anseio em prata.
Agora
mesmo feito em sal
ouso olhar além
a querer mais.
pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino nos teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.
pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora
Artur Gomes
1/2 Dúzia de Tarefas Hercúleas
(não tente fazer sozinho)
convencer a mula-sem-cabeça em ir ao dentista
colher água de dentro de meia dúzia de pedras
encontrar a chave da prisão de ventre
comprar colírio especial para o olho da rua
fazer o mudo empenhar a própria palavra
acertar uma pedrada bem no meio dos olhos de um ciclope.
Mauro Galvão
ESSENCIAL
A tinta escura é disparada ao papel alvo
Penumbra na alvorada entre estações
Sem leitor ou poeta
A penas desabrocha o poema ao vento
Umidade escorre no sorriso que brota sincero
Rafael Roldan
Matéria publicada em 01/01/2005
- Edição Número 65