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Editorial: 

A  poesia continua sendo nossa fonte inesgotável de comunicação com o que há de criativo no mundo e no outro mundo. Estamos aguardando os poetas e as vozes que sustentarão a construção da nova linguagem de entendimento. Se você deseja conhecer a Revista A Cigarra, não virtual, saiba como mandando uma mensagem para acigarra@ig.com.br. E que o Outono traga frutos saborosos e sementes férteis.

Jurema Barreto de Souza

Senhora! Eu bem quisera

Senhora! Eu bem quisera e todos, neste dia,
Dizer-vos num só verso alto, sentir que é nosso...
Mas, cantar-vos assim, em verso pobre e humilde...
É dizer-vos, senhora, o que não posso.

Uma coisa, porém, vos direi no entanto...
Uma coisa onde o Sol anda a tecer canções...
É um desejo belo, é um desejo santo
Que ri a gargalhar em nossos corações

Para que numa vida onde só há enganos,
Deus vos faça viver, senhora, tantos anos,
Tantos benditos anos, até poderdes ver

Os cabelos de luz e trevas, juvenis,
De vossos lindos  filhos, suaves como Abris,
Ao pé de vós, senhora, um dia embranquecer!

Florbela Espanca

 

estilo

brigamos, às vezes,
por quase nada;                                                                                                                                                                    leituras
deleites
cantadas

após o quarto whisky
todos nós
temos algo de Paulo Leminski

zhô bertholini

 

       palafita

breve brisa brinca
branda por esparso espaço
da rasante marginal

breve brisa brancas
nuvens em escassos passos
anunciam temporal

vento em movimento veloz vem
não há mais tempo

negras nuvens, a marginal sem
nenhum alento

Maurício Carneiro

O embrião

A natureza em paz anuncia
em teu corpo, forma divina,
o meu, que qual chama, vive.
 
Universo uterino: meu curso
submerso no teu mar divino
de segredos que revelam meu destido
no mistério das tuas verdades
que circulam meu ser: potência;
latente em tuas curvas, a vaidade
descansa em minha inocência.
 
Em teu peito, vida, a minha palpita;
A tua alma, nossa, ainda que tímida,
complacente, irradia meu ser, amorfo ainda,
com teu brilho que no meu, essência, habita.
 
O teu interior, minha superfície,
planta nos meus pólos múltiplos sentidos;
nas tuas entranhas, sim, meu endereço,
cresce uma estrala: Eu, teu ser querido,
que brilha para ti, Mãe, Cósmica mulher,
quanto em teu universo sólido permaneço.

Rosa Terra

 fogo-fátuo

pensamento que flambo
sua imagem flexível
fogo-fátuo
fluorescente

flamejante a sua voz
esperança poética
de um flanar intenso
que guardo
em mim

adriana zapparoli

Menina e mulher

A poesia é carne e alma
dentro da língua dos poetas
nos desassossegos das idades
pequena e imensa de desejos
nesta recusa de falar das tristezas
assim sou sem disfarce, nesta entrega
dou o meu sangue ao que acredito
nestes delírios de sentir e amar
numa sede imensa que carrego
num perpétuo sonho com a poesia
numa revelação sem tempo
 
Nunca aprendi os agrados falsos
só tenho o que sou capaz de aprender
as coisas do amor são difíceis
no mar que está em mim, correntes
ondas, algas, areias, peixes, marés
mas e eu que insisto em ver
os verdes, os azuis, as ondas
os horizontes em cantos
por isso insistem em me dizer menina
Não vêem a mulher
que atrai as águas em cantos de paixão,
que desenha as secretas vozes de sal e
escava corações com imagens e palavras
 
Guardo um lobo nos meus sonos
não semearei desgostos maiores
nas noites de ventos
Vi sempre as estrelas
apoquentada pelos silêncios
emudeço a minha voz
logo me deleito com os sons
do marulhar ao longe
nesta cidade que me abriga, onde
caminho dentro de mim
as memórias jogam entre si
depois de nada me servirá dizer
mulher menina mulher
cada um me inventará

Constança de Almeida Lucas

A MORTE DO POETA

Quando um poeta morre, todo o mundo chora
Um pranto sem lágrimas, um choro que aflora
No peito, na alma carente de poesia
E soa, calmamente, como um triste adeus.

Quando um poeta morre, o mundo silencia.
Calam-se os loucos, ajoelham-se os ateus,
Teme o inferno o poeta que empalidece
E deixa o torpe mundo, que logo se esquece

Dos poemas escritos nas noites aflitas,
Dos versos sensatos, das palavras benditas;
As obras intactas do artífice da língua.

Quando um poeta morre, a poesia míngua.
O tempo se contrai, a vida... a vida se esvai
Numa estrofe, num verso, num lapso, num ai!

 Abílio Mateus Junior

             

O primeiro sol

Como quem entra num quarto
e vê a luz aos poucos surgindo
pela adaptação da íris ao escuro
e não porque tudo ficou claro...
 
Como um caminho que,
à primeira vista, parecia ser longo
e, após duas ou mais vezes,
torna-se íntimo e seguro...
 
... o primeiro olhar de Gabriel entrou em mim:
brisa de uma manhã,
procurei guardá-lo como sol
nas cores de um domingo
cheio de praça, graça e hino
tudo com gosto de mel
 
 
Ele não chorava, nem sorria
apenas seus olhos se mexiam
como mãos procuram chaves
para abrir uma porta,
ou como aves
no escuro da madrugada
intuindo sua rota
 
Havia carícia e afeto
no lento movimento do seu corpo
abrigando-se, pequenino,
nos grossos braços do subúrbio,
como que consagrando
a pequenitude do grão de areia
diante do clarão aquecedor da Lua
 
Fechei meus olhos por uns momentos
e nunca mais vou esquecer
o ritmo de sua respiração:
a vida, enfim, vinha quieta e curiosa
tornando-se pássaro e estrela
em minha natureza

Hoje,
passados treze anos,
sinto-me em seus braços
como uma sílaba entre os traços
da mão sábia que escreve
sobre a passagem das nuvens
ou sobre a nua canção das aves.
 
Vejo a vida como quem sobe uma montanha
e não pode esquecer o que ficou para trás,
ao mesmo tempo que se eleva como uma prece
em busca do infinito sem parar o tempo
e redescobrindo o passado em cada gesto
quando esboça um novo movimento.

João de Abreu Borges

 



Matéria publicada em 01/05/2004   - Edição Número 57