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Editorial:

A Revista A Cigarra  abre espaço para novas linguagens e para a poesia sempre. Agradecemos a todos os que partilham conosco esse ideal, que continuem nos enviando seus escritos e suas opiniões sobre esse universo infinito da Literatura.  Jurema Barreto de Souza

já não me habita mais nenhuma utopia. animal em extinção,
quero praticar poesia
–a menos culpada de todas as ocupações.

Waly Salomão

pausa & pautas

as cinco horas da tarde o dia é um extenso silêncio de paisagens
que me acende & me devora & eu sou teu menino caído/perdido
na vida & eu te pergunto; a santidade corrompe a alucinação ou a
alucinação corrompe a santidade? tenho sete minutos após a tua
questão. tenho olhos & bocas & delírios na pulsação do meu
coração de planeta & é você quem me inventa & me arrebenta de
tanto sonhar neste meu/teu/nosso espaço de imaginações que
compõem melodias
                                      &      
                                                    assim
                                                    nesta tarde tão igual
                                                    neste infinito blue
                                                    o sol dança carnaval
                                                    enquanto muitas canções
                                                    me prendem & me soltam

Zhô Bertholini

RETORNO

Dessas distâncias
eu falo.

Digo céus digo homens
que caçam a origem.

Não voltarei
dessa plena distância.

Tenho a consistência do silêncio
primeiro.
Pois espero a floração das chegadas.

Parti para sempre,
com as histórias
órfãs de todos os invernos.

Prisca Agustoni

RITORNO

Da questa lontananza
io parlo.

Parlo cieli parlo uomini
che cacciano l’inizio.

Non ritornerò
da questa colma distanza.

Ho la consistenza del silenzio
primigenio.
Quindi aspetto la fioritura degli arrivi.

Sono partita per sempre,
assieme alle storie
dimentiche di tutti gli inverni.

Prisca Agustoni

Dias e noites

Dias e noites eu me chego bem pra
perto de mim - o sol se distancia e
uma luz se apaga - e as perdas qu'eu
sinto no peito, contrafeito, mordem-
me os sentidos, tolhem-me a vontade.
Noites e dias me pergunto tonto qual
o destino dessa vida errante, se pra
me encontrar me afasto tanto,
se ao me entregar me despedaço antes .

P. J. Ribeiro

OS MOVIMENTOS REAIS

arou. Por um momento
sem tempo ficou imóvel,
suspenso,
e deixou apenas
seu pensamento
se desprender sem
interromper a disposição
de um grão de pó
sequer
para ir
para o mais longe dali,
o mais distante universo
que alcança o pensamento,
e ir além
ainda mais
até não ser possível
então retornar,
para depois
se soltar
de si mesmo.

Ronald Polito

Têmpera

Cresço no fogo
Cresço no ar

O tempo todo
sou forjado
O tempo todo
esculpido
No fim
estátua longínqua
derreterei meu bronze
deixarei a forja
levarei a chama.

Ricardo Alfaya

Ser

Sou como o mar
imenso e profundo
a leste sou quente e brava
a oeste sou fria e perigosa
ao norte sou morna e triste
ao sul sou alegre e transparente.
Ou serei o contrário de tudo isso?
Vítima de uma geografia esdrúxula.

Sou como o mar
como o mar eu ofereço as minhas bordas
a quem quiser se divertir
mas poucos se aventuram a ir
nas minhas profundezas
a escutar a sereia que canta em mim
Ou será o contrário de tudo isso?

Sou como o mar
que abriga inúmeros seres
que pode tragar alguém mais ousado
mas que para viver precisa da água dos rios
da doce água dos rios pequenos e grandes
que se juntam para abastecê-lo
Ou seria o reverso desse verso?

Sou como o mar
plácido mar
mas... não um mar em português
sou um mar em francês
- no feminino
É assim que eu sou.
Sou?

ANA TERRA

A reinvenção da cidade

Olho vagando pelos meândricos labirintos urbanos .
Cidade -vitrine revelada em inúmeros passageiros
ilusionistas . Figuras mnemônicas , arquétipos
ancestrais expostos na maquinaria contemporânea .
Mosaico miriadoscópico registrando a teia-tela
multicultural . Pandora pós-moderna sugando
referencias da memória , tempo . Nos muros , vestígios
sinalizam o que está por vir . Construção e
desconstrução dialogam num jogo de espelhos . Mero
acaso , odisséia homérica num lance de dados.  Ao
emaranhar-se  na poliédrica escritura clariceana , o
passageiro desvenda o sentido do ser-no-mundo .

Diniz Antonio Gonçalves Junior

Enigma da Cidade 

Primeiro passo: minha rua
Santo André ainda existe
fora de mim, irreal
A imagem da cidade
materializa-se letárgica
Jardins, rumos conhecidos
prédios inesperados surgem
séqüitos de palmeiras
Paisagem mutante
alimentando a surpresa
Vestidos de tintas e idéias
muros brincam cirandas
diante dos olhos espantados
da cidade que amanhece
A chuva cessa um minuto
para ver nascer o sol
Traços amarelos, cor de rosa
riscam o céu sobre o viaduto
 a sustentar o azul
O tempo indeciso vaga
entre o cheiro de terra molhada
e a grama refletindo a manhã
A cidade se apossa de mim:
no encontro com as pessoas
no vento pela janela do ônibus
no Verão interminável
Ouço uma flauta impossível
uma menina carrega sua boneca
cheiro de cajus e café expresso
folhetos de cartomante
dançam na calçada
Gente de todas as cores e formas
compõem o cenário do dia
O tempo se apressa, a cidade
estende-se para além de meus olhos
Avenidas noivando luzes
bocas de lobo beijando asfalto
os pássaros se reúnem
nas árvores da Praça do Carmo
Santo André se acalma e passa
devagar pelos nossos olhos
sorrindo acena um boa noite
Nessa hora penso
esse querer estar aqui
mais do que em qualquer outro lugar
E o enigma encontra sua resposta
quando ao fechar os olhos
encontro a cidade que edifico a cada dia
guardada e protegida em mim.

Jurema Barreto de Souza

 



Matéria publicada em 01/04/2004   - Edição Número 56