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A difícil (e necessária) auto-crítica

Gabriel Perissé


Dalila teles Veras

Ler, pensar e escrever

Se alguém conhece algum livro sobre auto-crítica, por favor, me indique autor e editora.

Temos aqui um tema que causa temor.

A mim também!

Esquecemos que somos seres perfectíveis, e que graças a essa condição é natural nos arrependermos do que fizemos errado (ou do que de menos certo fizemos) e procuremos melhorar.

Muita gente já leu aquele poema de Fernando Pessoa (encarnado em seu heterônimo Álvaro de Campos), o poema em linha reta, modelo de autoconsciência sem complacência: eu tenho sido ridículo, eu tenho sido covarde, eu tenho sido caloteiro, eu tenho sido medíocre e vil.

Ah, como é fácil recomendar a auto-crítica! E como é difícil fazer a auto-crítica ela mesma!

O discurso psicológico dominante enfatizou a tal ponto a necessidade da auto-estima que temos receio de nos magoar. Faço de mim uma imagem boa demais. “Eu me amo”, dizia a letra de uma música brasileira. Se eu não me valorizar, quem o fará por mim...?

Mas a auto-crítica é o melhor caminho para a auto-valorização.

O pensador alemão Otto Rank, escrevendo no início do século passado sobre educação e psicologia, advertia que corremos, sim, o risco de exercer sobre nós uma auto-crítica anuladora, que produz sentimentos de inferioridade, culpas absurdas, ânsias doentias de autopunição. Mas nem por isso descartava a necessidade de uma saudável auto-crítica.

A auto-crítica é produtiva quando mantemos diante dos olhos, dentro da cabeça e no fundo do coração um plano de construção existencial e artística. Quem tem criança pequena em casa percebe seus esforços para engatinhar, andar, correr, falar melhor, encorajar-se, crescer.

A auto-crítica nos dá impulso para jogar fora o que não condiz com o que queremos ser, abrindo espaço para vermos e sermos o que devemos ser.

Gabriel García Márquez diz que podemos conhecer um bom escritor não tanto pelo que publica mas pelo que teve coragem de jogar no lixo: “se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho: o escritor tem de estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe.”

O grande artista é mais crítico com relação às suas obras do que os seus mais ferrenhos críticos conseguem ser.

A propósito, é exatamente esta auto-crítica, esta implacável auto-crítica que faz dele um grande artista.

Sobre o autor:

Gabriel Perissé (perisse@uol.com.br), carioca, 37 anos, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é professor universitário, coordenador-geral da ong literária PROJETO LITERÁRIO MOSAICO (www.escoladeescritores.org.br), criador e apresentador do programa de TV LER, PENSAR E ESCREVER, autor de um livro com este mesmo título (www.arteciencia.com.br/referencia/lerpensar2.htm) e do recém-lançado O leitor criativo, e autor de dicas gramaticais e etimológicas para o ZAZ (www.zaz.com.br/vestibular).
Internet: www.escoladeescritores.org.br;
correio eletrônico perisse@uol.com.br

 



Matéria publicada em 01/09/2001   - Edição Número 25