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SOCORRO! PONTUAÇÃO EM EXCESSO

Maria Tereza de Queiroz Piacentini


--- Gostaria de saber se é correta a colocação de ponto-final* no término de frases que tão somente indicam a data em que o documento foi elaborado. Daniel, Florianópolis/SC
 
--- Gostaria de saber se se usa ponto-final* no fim de datas, como por exemplo: Joinville, 9 de abril de 2003. P. I. P. C., Joinville/SC
 
Usa-se um ponto para marcar fim de frase. Pode-se dizer de outro modo, à maneira de Carlos Goes (Método de Análise, 24ª ed., Liv. Francisco Alves, 1961): a frase começa sempre por letra maiúscula e termina por ponto-final, ponto de interrogação, ponto de exclamação ou reticências. O autor chega a fazer uma nota para deixar bem claro que o período termina por ponto de exclamação ou de interrogação “quando estes coincidem com o ponto final” (ibidem, p. 12). Inferência básica: não se usa ao mesmo tempo a interrogação e o ponto-final, ou a exclamação e o ponto-final. Basta um deles para marcar o término do período. Portanto, é inadequada, por excessiva, a pontuação encontrada nos seguintes casos:
 
A menina ficou aos prantos: Socorro! Socorro!.
Admirou-se: “O presidente não gosta de assistir à televisão?”. 
A pontuação fica perfeita assim:
A menina ficou aos prantos: Socorro! Socorro!
Admirou-se: “O presidente não gosta de assistir à televisão?”
 
Observe que é redundante esse ponto-final mesmo quando existem aspas depois da interrogação ou exclamação. Repito um bom exemplo:
 
Após uma exibição privada de Sunset boulevard, título original deste filme, Louis B. Mayer, o ex-chefão da Metro, virou-se para o diretor polonês Billy Wilder e gritou: “Canalha!” Para o executivo, era demais... 
 
Excetua-se da regra, naturalmente, a exclamação ou interrogação que faz parte de um nome próprio e que por coincidência venha no final da frase:
 
“Eu não quero presente. Eu quero é dinheiro.” Dercy Gonçalves, atriz que acaba de completar 96 anos, em entrevista no A Casa É Sua, da Rede TV!
 
E o ponto da data, para que serve? Configura a data uma frase? Se não é frase, nada de ponto. Frase – resumindo o que dizem as gramáticas – é qualquer enunciado com sentido completo, contenha verbo ou não. Pode ser feita de uma só palavra ou uma reunião delas, e seu sentido é dado pelo contexto. São exemplos de frases sem verbo (o que nos interessa agora): Fogo! Silêncio! Oi, tudo bem? Tudo certo. Muito obrigada pelas flores, meu anjo. Que maravilha... Grandes amores, grandes tormentos.
 
Em princípio, uma data é um fragmento de frase. E fragmento não leva ponto. Se isso não convence, posso acrescentar que não se pontuam os títulos [de livros, capítulos, artigos, matérias de jornal etc.], as assinaturas, nomes de cargos, endereços e todo o cabeçalho de correspondência ou de redação escolar. Se a data aparece numa dessas circunstâncias, não é necessário pespegar-lhe um ponto-final. Eu não chegaria a afirmar que é erro, pois não me agradam as camisas de força em termos de linguagem. Mas recomendo economizar esse pontinho nas datas isoladas.
 
* O VOLP 2009 registra o hífen em ponto-final e dois-pontos.

 

 

Sobre a autora:

Maria Tereza de Queiroz Piacentini - Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades'

Hompege: www.linguabrasil.com.br

 

Instituto Euclides da Cunha
Luiz Fernando de Queiroz, diretor
Rua Marechal Deodoro, 235 cj. 1204 - CEP 80020-907 - Curitiba - PR
Fone (41) 3223.6543 - linguabrasil@linguabrasil.com.br



Matéria publicada em 01/02/2010   - Edição Número 126