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Gerúndio sem vírgula (1)

Maria Tereza de Queiroz Piacentini


--- Gostaria de saber em quais casos, efetivamente, deve-se empregar o gerúndio. Rosemary Toffoli, São Paulo/SP
É impossível ver todos os tipos de emprego numa só coluna, Rosemary. Mas há duas semanas tivemos a oportunidade de analisar e estudar um caso, aquele em que o gerúndio precedido de vírgula dá ideia de adição em substituição ao conectivo “e”.  Repito um exemplo: Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, lamentando o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula, marcando uma conversa pessoal. Isso equivaleria a dizer: “Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, e lamentou o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula e marcou uma conversa pessoal”.
Vejamos agora o uso do gerúndio sozinho (sem verbo auxiliar) numa situação de oração reduzida adverbial de modo depois da oração principal. Neste caso específico, quando o gerúndio denota MEIO, MODO ou INSTRUMENTO - respondendo, portanto, à pergunta como? -, não se usa a vírgula, pois aqui se trata de uma oração subordinada na sua ordem normal, que é depois da principal. [É importante observar que no parágrafo anterior se falou de gerúndio que une orações coordenadas.] Eis alguns exemplos de orações reduzidas modais de gerúndio (sem a vírgula, portanto):
O presidente subiu a rampa correndo.
A cigarra passou a vida cantando.
Mandou pintar o edifício empregando mão de obra local.
Dewey já comentava a importância de “aprender fazendo”.
A criança constrói sua cultura brincando.
Finda a sessão, a ré saiu chorando da sala.
Esse fato contribui ainda mais para afastá-lo da sua missão de eliminar conflitos realizando a justiça.
O Direito deve retomar o seu papel de instrumento de ordenação respondendo às convenções morais.
Em 1831 um empresário decidiu minorar a falta de transportes públicos de Nova York encomendando um veículo para 12 pessoas a um fabricante de carruagens.

Em Portugal, é bom que se diga, o gerúndio é desprezado nesse tipo de frase. Lá se costuma empregar a oração reduzida de infinitivo, que nós brasileiros também usamos (mas não tanto): Subiu a rampa a correr / passou a vida a cantar / a criança constrói sua cultura a brincar / saiu da sala a chorar e assim por diante.
Podemos afirmar também que a ausência da vírgula diante do gerúndio (ou oração gerundial) é a regra em qualquer tipo de oração adverbial na sua ordem habitual, isto é, depois da oração principal, não anteposta nem intercalada. Constata-se esse uso mais frequentemente quando o gerúndio equivale a uma oração adverbial final, ou seja, aquela que exprime uma finalidade (poderíamos dizer que responde à pergunta para quê?):
Telefonou para sua mulher dizendo que ia jantar fora.
O BC emitiu nota oficial desmentindo os boatos especulativos a respeito dos juros.
Ele renunciou objetivando facilitar as investigações.
A imobiliária deve enviar e-mail ao locador avisando-o de que fez despesas em seu favor.

Tem mais. Proximamente abordaremos o gerúndio equivalente a uma oração adjetiva restritiva, igualmente sem vírgula.

Sobre a autora:

Maria Tereza de Queiroz Piacentini - Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades'

Hompege: www.linguabrasil.com.br



Matéria publicada em 01/12/2009   - Edição Número 124