Chegamos ao mês de junho com a poesia privada de dois poetas agitadores
e guerreiros. Waly Salomão e Yêda Schmaltz . Certamente quem os conheceu saberá
avaliar a perda e quem não teve essa oportunidade poderá, com o advento da internet,
encontrá-los eternizados nas ondas virtuais. Waly Salomão conheci através de
livros e de seus poemas musicados por vários compositores da nossa Música Brasileira,
Yêda Schmaltz, durante anos de correspondência por carta , e-mails e por seus
livros que sustentavam uma paixão enorme pela poesia. Deixo a cada um a curiosidade
e a busca destes dois poetas. E seguimos acompanhados de outros tantos que vão
manter vivo o ideal de que a Poesia é um modo de vida, amenizando a mediocridade
de que nos cerca, a violência do homem contra o homem e contra si próprio.
Seguimos acreditando.
Jurema Barreto
Hoje
O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.
Hoje...
Waly Salomão (in memorian)
Flecha
O meu week-end mal resolvido,
meu The End,
meu Paradise Lost!
(Já reparou que estas coisas,
em inglês, todo o mundo entende?)
Mas Shakespeare em CD-ROM é dose.
Eu não agüento mais ver Julieta
se matando; eu não agüento os hackers, esses intrusos me invadindo
e vendo que este amor
foi como um desastre ecológico:
mortos, borboletas e pássaros,
um jorro de lava, um continente partido,
contra Tebas, dezessete;
trombetas e hecatombes.
Minha vida refeita em chips,
entre rocha de basalto
com o frio letal
de estrelas torturadas?
Mas se desejar salvar
minhas estrelas neoclássicas,
é só levar esta caixinha de disquetes.
Yêda Schmaltz (in memoriam)
Estrangeiros
Era madrugada e velávamos.
Descemos a montanha
com o peito deserto.
Estranhos como deuses.
Nem sabemos o nosso próprio nome.
Poeta tem sina.
Sinto desde menina,
sem que ninguém me avisasse.
Sina de poeta é silêncio
de palavras absurdas,
que só deixam marcas
e criam rugas,
quando habitam o papel.
De repente amar
é mais que um copo
de cicuta na mesa de cabeceira
é mais que uma corda
no pescoço pendurada
é mais que a gilete
no pulso comovido
com o sangue do ontem
é mais que saltar
de um prédio do doze andares
ou atirar-se aos famintos
trilhos dos trens.
De repente, a maior prova de amor
e não sofrer.
Jurema Barreto
ABANDONICIDADE
meninos sem destinos
entre a terra e o céu
nos faróis, nas calçadas
cheiram cola, lambem o papel
usam, abusam e se lambuzam
vítimas de uma realidade cruel
aos restos
sem rostos
sem nomes
vagam defronte as vitrines
entre os sonhos e as fomes
meninos sem destinos
que a pátria mãe pariu
em berços nada esplêndidos
no ventre que se feriu
entre propostas e promessas
de uma política não gentil
aos montes
sem dotes
sem donos
vivem a espera da sorte
de serem acolhidos em seus abandonos
Zhô Bertholini
Matéria publicada em 01/06/2003
- Edição Número 46