A Revista A Cigarra continua sua viagem entre poetas e
poesias por todo Brasil. Estamos mantendo vivo um ideal, que não é mais sonho,
nada mais real do que estas dezenas de poemas que estão gravados em nossas páginas.
Visite-nos. E se você deseja conhecer a Revista A Cigarra, que completa este
mês 21 anos de atuação poética e é uma das mais antigas revistas independentes
(ou seja, feita e custeada pelos próprios editores: Jurema Barreto, Zhô Bertholini
e João Antônio da Silva Sampaio, com algumas cumplicidades de amigos), entre
em contato e saiba como recebê-la, ainda possuímos alguns números disponíveis.
E mais disponível ainda está a Poesia, esse mode de ver a vida e reinventa-la.
Jurema Barreto
Alvos
nem toda vidraça
estilhaça
o mesmo
som
ser poeta é vício
portanto
descarto a hipótese
que se nasce com o dom
Sei
que as de chocolate não oferecem perigo
resguardados pança,
diabetes e culotes
nunca se ouviu notícia de morte.
Nas padarias
ficam ao lado dos sonhos
as bombas inofensivas,
é um lugar distinto
pão, leite, donas Marias,
meninos e moscas desejando-as pelo vidro.
Leio no jornal que há bombas limpas e inteligentes
caindo sobre Bagdá,
no café da manhã.
É uma invasão
mas as tevês também estão nas padarias:
um homem limpo e inteligente
fala da precisão das bombas
limpas e inteligentes.
Sujas
mesmo só as minhas mãos
que o jornal tingiu de luto
e mal podem pegar o pão
nosso de cada dia.
Fabio Brazil
Lágrimas de vidro
As facas estão em torno de mim
Minhas faces e meus espelhos
Se rompem em mil pedaços.
Minhas palavras vêm cortar as línguas
Minhas palavras vêm cortar teu sangue
Minhas palavras vêm ferir àqueles
Que me ferem com tais facas.
Minhas lágrimas se traduzem em palavras
Se transformam em cacos de vidro
Para triturar as carnes
Daqueles que me ameaçam.
Aqui vai-se o meu pranto
Aqui vão-se as palavras
Aqui vai-se minha história
Meu sangue, minha vida.
Aqui vão lágrimas de vidro
Para furar corações
E fincar estacas
Nas mãos dos meus algozes.
A cidade se fecha às seis horas da tarde,
faz balanço,
as luzes artificiais inauguram outra cidade,
com novas leis.
Nós, os mesmos, vivemos as duas,
trocando de roupa, mudando de cor.
Faço o poema a guerra
pedindo para não sujar as mãos.
Alguns homens tornam-se lendas
quando surgem guerreiros ao leste
sob o sol a pino, de repente,
sedimentam-se, mármore, estátuas.
Talvez uma voz trazida no trovão
tenha substância de pássaro de fogo.
Quiçá um trovão de ave
flua pomba para sobrevoar,
gesto de pálida ignota mensagem.
Talvez, o que enerve nas guerras
são as pobres vozes, carcomidas
em andrajos vermes à mesa
II
Estas palavras nobres que aí estão,
me preservem de futura censura,
a chave e a mais secreta licença.
Se me tranco no poema,
entristeço-me, porque a voz,
não seja capaz de encantar o espírito
dos homens que tecem armas.
Para aqueles que não compreenderam
o espírito de Ulisses, a desenvoltura,
ao semearem trevas, noite leve pouse
perto da sepultura, trazida como buquê
pela insípida bomba.
III
Não havendo vida,
cambaleia toda sombra;
não havendo mais sombra
cambaleia toda a lenda;
Não havendo mais lenda,
silencia-se este poema,
e, o que nele traduziu-se.
Não sei o que virá depois
pela estrada forrada de desejos
que nos trouxe de outros tempos
e nos devora
entre manhãs tardias
e uma corrida atrás da História
Vire a página, amiga,
o futuro também guarda memórias.
O que nos sufoca é um sorriso engasgado
na garganta de um século
que chegou antes da hora.
POESIA É COISA QUE PROCURA
O QUE NÃO HÁ.
É PERDA DE TEMPO, DE TINTA, DE ENERGIA;
É GASTAR COM O CANTO O PAPEL DA CONTA;
É SOPRAR BRASA FRIA, BALÃO FURADO, ILUSÃO.
POESIA É COISA QUE PROCURA
O QUE NÃO HOUVE.
É QUERER QUEM NÃO O QUER;
É VIVER O QUE É MORTO;
É AMAR A INDIFERENÇA.
POESIA TAMBÉM PROCURA O
QUE NÃO HAVERÁ.
NÃO HAVERÁ OUTRA CHANCE (NUNCA HOUVE);
NÃO HAVERÁ OUTRO ABRAÇO (ERAM FALSOS);
OUTRO AMOR NÃO PREENCHERÁ O VAZIO DESTE.
POESIA, PORÉM É COISA TEIMOSA, NÃO CANSA.
VERSO QUE É VERSO NÃO CALA NO LIVRO FECHADO;
PERMANECE VIVO QUANDO O PAPEL É RASGADO...
CADA PEDAÇO CANTA A SAUDADE DOS OUTROS.
(Glauco)
Foi-se o verão cansado,
De várzeas herbáceas infinitas,
Malditas por joios alados,
Prostrados ao lado da vigília.
O inverno engendrou-se pleno nas poças de suas vigas.
Vaidosos sorrisos vergados.
Delgados torrões de brisa.
Das brumas feéricas,
Ergueu-se a Dama dona de meu machado.
Cuspindo o metal, e ao tinir,
Marílias dançavam no prado.
Nos vestidos de pano poído,
Mastigou-se o sabor da obra.
De flores se deteve a maçã.
Do éter em mim,
Nada sobra.
Glauco Rondelli
Matéria publicada em 01/05/2003
- Edição Número 45