Impossível ficar alheio, mesmo se não abrir o jornal, não ligar
a tv, não acessar a internet, a notícia vem. Doía menos nos livros de História,
nas figuras desenhadas, nos filmes de bang-bang, no seriado do século passado,
nas palavras acadêmicas.Doía menos quando a porta das imagens era estreita e
o pensamento não atinava o que era a dor humana. Doía menos quando paz e amor
era o símbolo de um futuro em que se acreditava na Era de Aquários. Não importa
se somos contra ou a favor, não importa a indignação e ódio. Tudo apenas é.
E passará. E dizer “ pra lá de Bagdá”, não é mais brincadeira, talvez amanhã,
Bagdá ( ou hoje) não exista mais. Quem soltou o gênio do mal? Não há magia
nisso, muito menos poesia. Sem lendas o Homem procura ainda tesouros nas entranhas
da Terra, quando a riqueza é a própria Serenidade, essa tão difícil conquista
diária. E só resta esperar, amenizando a sensação de impotência com um poema.
Jurema Barreto
BEM SEI
SER SOL
QUANDO
TUDO EM MIM
ANOITECE.
Zhô Bertholini
A Arte da Palavra
nesta questão fulinaíma
não há rima que nos separe
poesia ou coisa alguma
que o teu olho aqui repare
palavra arte que assumes
amor suor
ou
faca de dois gumes.
Artur Gomes
VAZIO
Caí
no imenso vazio
do espaço sideral
e o vazio
coube todo
dentro de mim
mas
se vazio
é ausência
é nada
O que será essa
totalidade
que senti?
Suellen Quaresma Camilo
suqc@bol.com.br
NEPENTES
Dou-me à dor dôo-me
indomável nem medo
medrou-me por queimar
imagem velar dormência
imolar imóvel minhas
manhãs adorando a dor
no adormecer-se remir
acordar-se devedor
Elson Fróes
Assepsia
"Tão triste que na própria morte não haverá maior tristeza".
Dante Alighieri
corredores hospitalares
: olhos evitam olhos
apenas o silêncio cumplicia
(o ar cortado às fatias)
corredores hospitalares
: no branco asséptico
a cor turva do sofrer
(gélida paisagem)
Dalila Teles Veras
amar-te no mar
sou coral, calor
apareço nos mares em avermelhado e luz
e tua aura, em verde e azul,
turquesa
cor de pedra sagrada,
és a água limpa e calma onde me banho,
coral, gata,
que quer tua luz serena
para ser sorte e pedra d’água
em espontânea coragem e comunicação etérea
de palavras, sons, imagens,
respirar-te
Cristiane Grando
Quanto,
quanto,
entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
piorando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contra gosto,
frio,
no fundo do poço,
na vida,
catarata cobrindo
o corpo
todo,
contas sem pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre do rato,
tifóide,
deixando de lado
o amor,
sopro
cosmo
humano,
disenteria,
erros calculados,
a poesia?
Fabiano Calixto
a vinda
dos clamores do mundo submerso
disparo contra a lua
sou por acaso
excentricidade em vida
que sai do mundo externo
emergindo num mundo interno
de dores
lágrimas
e até avessas
recuo e sigo
pensando sempre da onde vim
e para onde estou indo
num exílio antiqüíssimo
em busca do instinto nato
de ser mulher
e percorro
e corro
na busca
como um ser que não encontra os afins
e permanece em silêncio
Quero meu karma completo.
Quero meu corpo repleto.
Corpo que me carrega
por toda minha existência.
Minha resistência.
Quero isso,
sem compromisso.
Ainda que pra isso,
tenha que ter
mais um dia de fome
mais uma noite insone
menos uma célula viva
menos uma gota d’água
menos uma molécula de ar.
E mais
uma idéia na mente,
mais um passo adiante.
E a certeza de ser
não só mais um,
mas um só.
Incessantemente.
Presente na solidão,
não de poder ser só,
mas só de poder
só ser.
Só assim poderei ser
sempre meu ser.
Afrânio Gouveia
Matéria publicada em 01/04/2003
- Edição Número 44