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Editorial

O tempo segue sua cartilha inventada pelo Homem, mas nós não tememos mais o tempo, porque na poesia eternizamos momentos, amigos e histórias.Cada um, a seu modo, desenha no espaço etéreo as linhas que costuram através dos tempos as vidas dos seres. Saúdo os dezembros, não quero despedidas, mania que temos de enterrar passados.Que sejam sempre vivos, uma linha sem divisórias, sem etiquetas de fim ou começo. A Poesia é a chuva de fogos que inaugura em nós o privilégio de estarmos vivos.

                                                                                                            Jurema Barreto.

liberdade?

marcha d´almas
beijo o ventre suspenso de palmares
gerações silenciadas pelo açoite sádico
cristais de ébano
liberdade?

furtaram seus sonhos
sua identidade

projeto literário: Homo-Sapiens<Poemas soturnos>
j. geraldo neres

ALMA PAGÃ

Se quiser vá,
mas não levará teus seios;
destes, eu não abro mão!
Pode pegar teu coração na geladeira,
dentro dele não há nada de meu.

Vá, pode ir, mas não levará teus lábios!
Eles ainda roçam minha nuca
e de lá não sairão, juro que não!
A língua também fica;
com saliva e tudo. 

Parta, siga teu caminho!
Mas vai castrada.
Tua vulva eu guardo comigo;
ela tem teus perfumes;
ela é olho único da tua alma pagã.

Não devolvo tuas coisas!
Nem à polícia entrego tuas nádegas!
Vá, mas vai aos pedaços, garanto que vai!
E não volte, que não adiantará...
Mas, por Deus, me faça crer que voltará!

Alexandre Fagundes
E-mail: Fagundes-bh@bol.com.br

A Arte da Palavra

  nesta questão fulinaíma
  não há rima que nos separe
  poesia ou coisa alguma
  que o teu olho aqui repare
  palavra arte que assumes

  amor suor
         ou
faca de dois gumes.

artur gomes

Encontro uma palavra

Em mim havia esquecido a dor
nas noites e dias onde as horas rápidas
ficam menos pesadas, astutas
no murmúrio, no meio do peito
choro, agora só para dentro
entretanto, encontro uma palavra
com ela desenho o mundo
encanto - me com o outro
um outro inventado
não hei de esquecer-lhe o rosto
esse que existiu nos livros partilhados
distantes em labirintos
de quereres brincantes
nas memórias com ecos
dos nossos sorrisos
com sabor de abraço
nesta dor de viver
nos caminhos que me trazem
as palavras que não quero
e as que mais amo

SP / 2002
Constança M. L. de Almeida Lucas
http://www.constancalucas.dialdata.com.br
cons@dialdata.com.br

 

IDENTIDADE

Que povo eu sou
que senta comigo no sofá
e que assiste a tv embasbacado?
Que povo eu sou
se não sou um
mas muitos nós?
Que povo eu sou
que vai à missa
e pede perdão e pede clemência
e salvação pelos erros
que cometem conosco comigo?
Que povo eu sou
incompleto e perdido?
Que povo eu sou
que vivo olhando
para o meu próprio umbigo
e não me encontro em mim
mesmo nos outros eus?
Que povo eu sou
se não sou eu?

Hideraldo Montenegro

 

ENTRE ELES

José assiste tv com família
Adriana faz sexo com dois caras
César reza uma Ave Maria
Renata liga seu carro.

Adriana está sozinha
Renata está fashion
César sem cocaína
José está pendurado na porta do ônibus.

César lê a bíblia
José alegra-se com o feriado
Renata malha  na academia
Adriana conversa e dança no bar.

Renata compra e come
César rouba e foge
Adriana cala e dorme
José cai...

Wellington Gustavo Pereira
wellgus@ig.com.br

poetadegaveta@zipmail.com.br

NUNCA MAIS           

Sonhei que o mar
                      avançava pela sala
                                             e as pedras
                                                     suportavam
                                                     nossa velhice

Há sinais de peixes
                     no universo?                          

Um osso mergulhado
               na lacuna do tempo

E as nuvens tão azuis
e as heras tão verdes
                        me seguem

Em revoada
os corvos
              anoitecem

Solange Rebuzzi

 

 



Matéria publicada em 01/12/2002   - Edição Número 40