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Editorial

A Cigarra continua agitando, não apenas com a Revista não virtual, mas participando de movimentos e eventos que estão acontecendo em Santo André. Foi inaugurada dia 29 de agosto  a Mostra Visual  Centenário de Drummond, comemorando

o aniversário do poeta itabirano.A exposição ficará até dia 31 de outubro, quando faremos um encerramento com várias manifestações artísticas inspiradas em Drummond. Os poetas sempre estarão vivos na alma dos leitores de olhos atentos.

Jurema Barreto

Desejei um canto com palavras

Desejei um canto com palavras
mas a realidade devorou o meu delírio
antes e depois de ti
antes e depois de mim

nos aromas
sinto a pele
quero ouvi-lo
neste silêncio
de tanto o querer ouvir
invento-lhe dizeres e cânticos

adormeço num som
imaginado dentro do barco
da ausência que em mim
se agita
numa voz perdida
fico dentro dos meus desenhos
onde o amor
ainda é possível
onde os continentes
sonham e se abraçam

sonho que sou louca
por tanto assim acreditar
Constança de Almeida Lucas

POEMA

Ferro brasadormecida
crostas e encostas enegrecidas
Eu!
pétrea-estupidificada
ensandecida
brutamolecida
rosa
"
molusco”
Lauro JM Marques - laurojmm@estadao.com.br
metrô, 06/05/2001

A Ponte

Salto esculpido

sobre o vão

do espaço

em chão

de pedra e de aço

onde não permaneço

-         passo.
Zila Mamede (1828-1990), poeta,
nasceu em Nova Palmeira-PB, mas seu berço literário foi Natal -RN.

Ilhas Trindade

Pela janela dos meus olhos
Vejo a noite que chega iluminada
Sento-me à beira mar e te espero.
Fixo o céu de estrelas brilhantes
E vejo-te em cada brilho do luar
Deito-me na areia e me aqueço
Procuro-te e a lua sorri complacente
Fiel escudeira e cúmplice deste amor
O mar banha meu corpo e geme de prazer
No êxtase previsível percorre meu abdômen
Deixando-me à deriva, totalmente perdida
Rolo na areia e conduzo-me peregrina
Tocando nas águas límpidas da minha pelve.
Esquecida nas brumas do tempo me deixo amar
Iluminada por estrelas que não deixam de brilhar.
Rose Mary Sadalla
Rio de Janeiro-RJ

HORACIANA

Goza os dias
- e as noites mais ainda - :
que sejam lindas
e iluminadas de sonho
ou sanha.
Goza as rosas
- e as framboesas -
de vertiginosas mucosas

os úteros telúricos  as ursas
maiores e menores.
Goza os dias
em todas as suas vias
e vales  avencas  uvas
Que não percas
nem as parcas
sementes das auroras inocentes
ou as frias
raízes da madrugada:
goza a integrada
natureza do todo
- da luz ao lodo.
Goza a prosa
e a poesia
que se espirala em tontas falas
de flor e fécula
cascata  chocolate    explosão
de abismos em néon
e grão
e bala
por galáxias e salas
deleitosas:
goza!
nenhuma glosa
te disperse
nenhuma dor
te escureça - ou
rosa negra
te cegue.
Goza os dias
e se não todo o mundo
cada segundo
do que resta
da festa.

Mauro Gama
 in Balaio 1506-RJ

Poética

As palavras sonham que as nomeemos.
Léo Libbrecht

Invento a palavra
a que sofre o desapego
                         das rãs

campo minado
de sentidos

depois
invento o chão lavrado
em que os sítios se fundam
fundas de Davi

o resto
eu colho de mim.

André Ricardo Aguiar
do livro Alvenaria

creio que a escuridão é eterna
e a insônia é um peixe
que devora meus olhos no abismo
onde o monstro da morte
diverte-se tentando pescá-los.
Tento libertar-me das fisgadas
e uma lança ardente
estilhaça um pedaço inteiro.
A dor me assusta mais
que milhões de anões em meu encalço
expelindo mandrágoras.
A morte se cansa e devolve meus olhos
em forma de recompensa: estou viva!

Francis de Oliveira
Santo André/SP - (1961-1991)

RÉQUIEM

se queres
a palavra inaudita
na ponta da língua
inaudível
vai em paz
se queres
de aços exatos
uma linguagem
que corte fô1ego
alvo
branco
VAI EM PAZ

Fabrício Marques
in Meu pequeno fim.
Bh-Mg

Ausência

Um corpo garça
malabariza
depois
lugar nenhum
corpo garça
passa
larga de rastro
um desejo de luz.

Cristina Bastos
in Teia –SP-SP

OSTRA E PÉROLA

entre os lábios
aprisiona
a ostra
marulho das ondas
o uivo ruivo do mar
dentro da noite
o ruído branco de luas
Lilith a tatuar na pele
seus gemidos
através de ruas
teu grunhido de runas
roçando
no colar de pérolas
da noite

João A. da Silva Sampaio.

OYSTER/PEARL

between the lips
an oyster imprisons
wave sounds
a red howl of the sea
into the night
moon's white sounds
Lilith is tattooing her moans
onto the skin
through the streets
a squeal of magic stones
touching
a night's pearl necklace

João A. da Silva Sampaio

Por que

retrair-se à agenda alheia desistir
dos cinco sentidos por que o relógio,
as distâncias que cria, o mover-se
a sua sombra por que as chaves
giradas, o diário trancar-se com a família
por que a gravata, esperar o fim do dia,
dos dias por que o espelho, o asseio,
a rotina dos sapatos por que as senhas,
os códigos, os telefones de emergência,
endereços por que os passos, os prazos
exíguos, as datas consumidas
como aspirinas

Tarso de Melo
Suplemento Mais
Folha de São Paulo-25/08/02



Matéria publicada em 01/09/2002   - Edição Número 37