A Cigarra se sente amplamente feliz pelo visitantes que
tem recebido. Estamos divulgando não apenas os grandes nomes da poesia, mas
os poetas contemporâneos, que são muitos, uma verdadeira legião que prova a
poesia e o poema como necessidades vitais do ser humano.Esperamos continuar
recebendo poetas e amigos leitores em nossa página.
Jurema Barreto
"O olho abraça a beleza do
mundo inteiro. É a janela do corpo, por onde a alma especula e usufrui a beleza
do mundo. O que há de admirável no olho é que através dele - um espaço tão reduzido
- seja possível a absorção das imagens do universo. De sorte que esse órgão
- um entre tantos - é a janela da alma, o espelho do mundo."
LeonardoDa Vinci
sem título
Nem tudo que a lembrança quer
Que de mim eu faça
É o quê eu agora idéio
E nem tudo que hoje odeio
Faz parte dos meus amores de criança.
É da natureza da ficção a vida relatada
E a memória, artista solitária,
Contenta-se com palmas unitárias
Neste ato em que foi vaiada.
Viva a mentira!
Arte das artes,
Mãe da mais íntima alegria.
Salve a madrasta da razão!
no quintal da velha casa caiada
forno à lenha
muito pão muita terra
para quem tem fome e coragem.
fotografias amareladas além das paredes
atravessaram o tempo e outros tribunais
por estradas que não dividiam rios
rios que não cortavam estradas.
por um pouco mais pouco menos
sonhei com mulheres vermelhas
enterro solitário
navios
e elefantes.
e a casa ainda hoje perpetua
sonhos e temores
mas o brilho nas mãos de minha mãe
com a cera parquetina
no chão da sala esconde outros sonhos
outros sonhos adormecidos.
Em Itabira há muitos caminhos
são caminhos de pedra
para o trafego de anjos tortos
são caminhos tangíveis
e que dão belas fotografias de parede
alguns curvam-se em serpentina
outros cavoucam montanhas de ferro
são todos estreitos
Sentes-se Itabira
Pelo seu ar de fuligem
Seu caos futurista
E poucas mulheres no caminho
A cidade devastada tem trens
Que não lhe pertence
Por onde escoa a riqueza
Sobrando o pó de pedra e ferro
Itabira sempre foi globalizada
Pelo que doou ao mundo
As riquezas de minas
Consumidas como queijo
Foi lá que nasceu ondaalta
O poeta Drummond
Que por desejo de existir
Foi nadar num outro rio
Os caminhos de Itabira permanecem
Em serpentina. Tristes e distantes
Mas a Itabira mítica vive
Como sua estrela mais alta.
Jiddu Saldanha
Vida Urbana
Cidade Natal dos meus anseios delirados
dos meus dias amargurados
de caos dentro de mim
... Cidade sem fim nas esquinas
louco destino feito de ruas e becos
onde me perco como a neblina
Cidade dos meus desejos incontidos
sacudidos neste vento
vindo dos subúrbios da agonia
... só o que me dá contentamento:
poesia "
região polar boreal
Yêda Schmaltz
Como uma girafa
de pescoço mais longo
do que deveria, sei que sou,
desde as incertezas e os
primeiros sofrimentos de menina.
Mas sou os outros bichos todos
dessas formações do céu
e os que ainda não se agruparam
em constelação.
Como, por exemplo, um Dragão
cheio de jogo, cheio de fogo.
(Às vezes, me olho no espelho
e não sei se sou eu ou ela.)
Sou principalmente
como esse Cão Menor
(um problema de pele),
uma cadela vadia,
no desejo de lamber
a mão do macho,
em pleno cio.
(Mas, não dá pra perceber
que sou um Botticelli?)
Yêda Schmaltz.
Poema publicado no livro Rayon.
A palavra tece pela cidade
sua ébria caminhada
Sóbrios são os sonhos
nos quais tropeço meus passos
A noite, é imensa frase
de amor a escrever-se
nos becos e bocas
do meu coração cheio de luas.
Jurema Barreto de Souza
Palavrando
a poesia cria um clima, mina
ora por baixo, ora por cima
o que vem por dentro, despacho
ao certo quase não sei, tento
rascunho, rimo, rasuro, invento
o que vem por sério, relaxo
o que a voz não sabe, cala
o silêncio em si dá uma pala
lavra o rumo da meta, certeira
de sol a solo, soluções
gestos, ritmos, pulsações
o que não se vive, dá bandeira
Zhô Bertholini
Matéria publicada em 01/08/2002
- Edição Número 36