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Editorial: A Poesia sempre norteando nossos passos, não o poema como troféu e reconhecimento, mas como o ar que respiramos e s
Editorial

A Poesia sempre norteando nossos passos, não o poema como troféu e reconhecimento, mas como o ar que respiramos e sem o qual não vivemos, mesmo quando nem percebemos, respiramos, mesmo quando não percebemos a Poesia está no meio de escombros, de abraços, de silêncios. E para não silenciar nunca e continuar participando deste universo poético, mais poesia.

Avisamos os amigos que depois de vinte anos nossa Caixa Postal mudou, sim, a NÃO VIRTUAL, que de vez em quando recebe cartas, jornais e notícias. Anotem: Revista Literária A Cigarra – Caixa Postal 214, Santo André, SP, CEP 09015-970.

O número 36 da Revista A Cigarra, com capa de Antonio Peticov  e um time bem interessante de poetas, está a venda, maiores infornmações e pedidos para acigarra@zipmail.com.br. E enviaremos pelo correio, uma experiência ainda única em tempos virtuais.

Jurema Barreto

Corpo a Corpo

minha fera me fere
e me obriga à briga
    de unhas e dentes
enquanto um dia lento
agita bandeiras em cios
        de mel e sangue
    e o sol permanece   
    preciso e necessário
entre delírios de amor e morte

Zhô Bertholini

Escapo da fera indo ao seu encontro
mundo nervoso de sóis
Das caravanas, cusparadas em torno,
restos, as gentes.

Retorço-me

Vejo outra cidade, a mesma

e s c a p ( t ) o
a m u l e s q u e l e t o

Além do átomo, a solidão.
eu, meu próprio luminar.

renato negrão

A SÍNDROME DE CAIM

Vê como nós compramos a ouro
essa carnificina de alhures!
(A televisão mostra um homem ensopado de sangue,
que rola no chão e grita,
enquanto explode o fogo ao redor da Igreja).
É assim que eles nos alienam do que é fraterno e nosso!
Já mataram os índios e massacraram os negros.
E hoje aniquilam corpos e almas.
A televisão mostra como eles extravasam a violência deles.
E aqui se macaqueia a psicose desses fascínoras!
Eles nos transmitem a paranóia deles,
o sado-masoquismo.
E querem que o mundo aprecie a horripilância,
essa abominação insana que eles cultivam.
Não há um só filme sem tiroteio e espancamento.
Não há um só filme que não seja história de corno,
de prostituta, de fascínora...
E aqui semeiam a cizânia e disseminam a peçonha deles,
que eles querem que seja nossa.
Querem que nos imbecilizemos,
que nos destroçemos uns aos outros,
como eles fazem entre eles.
Em todos os continentes há guerras
fomentadas pela loucura deles.
Todos os dias morrem milhões de criaturas,
assassinadas com armas fabricadas por eles.
São eles os financiadores do fratricídio:
perigosíssimos débeis mentais.
E estão mortalmente enfermos.
A doença?
A síndrome de Caim.

Márcio Catunda
mcatunda@mre.gov.br

Lago

Sou água:
eis um novo nome para o tempo
por seus versos liberto;
eis um novo amor para o vento
sussurrar ao infinito:
murmúrio branco,
memória baldia,
relíquia líquida que se aquece
quando o dia respira.
A correnteza apressa-se em avançar
sobre as marcas dos meus passos;
a profundidade dos peixes ameaça mergulhar
sobre o rumo dos barcos que alcanço:
quem me vê
como espelho agradece,
quem sofre como espantalho
arde em sal
dentro de um corpo líquido doce.

João de Abreu Borges

 

"Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas,
ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escava
e faz saltar o filho das entranhas da terra!"

Pablo Neruda

 

confesso que confesso

todos os meus sentimentos
                      estão guardados
num bicho cheio de tentáculos

              mesmo que minhas
moendas vitais pudessem
retorcer os ossos do acaso
ainda assim meus sentimentos
estariam guardados

porque o bicho e
                seus tentáculos
não me deixam tecer
           uma manhã suicida

este poema

este poema sim
este poema se despe dos
motivos com a única e
derradeira função de dizer que
meus sentimentos estão vivos

pulsam no poema
e correm nas veias
                        feito sangue

e a todo instante me dizem
que sem eles
                                não existo

Lau Siqueira

   

QUARENTA ANOS

A vida é pra mim, está  se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

 

A Costela do Grão Cão, 1933 – Mário de Andrade

Canto de Regresso à Pátria

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Oswald de Andrade
Poesias Reunidas
Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1971

SISTEMAS : ORGANDI

 

Para onde ó verbo,
desterrado canoeiro, teu
cajado fez-se apenas luz,
te repôs à umidade
das línguas ?

Abrevio teus seios
no descuido de um
                          ponto
                          vermelho

Borboletear por cada
escuridão :

folhas tremem
suplícios
finos
fios
de algodão

ovos gigantescos
explodem entre as
      nuvens

mar se cala

súbito

Andintyas Soares de Moura
In Lentus In Umbra



Matéria publicada em 01/06/2002   - Edição Número 34