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Editorial

Entre guerras, crises  e ondas de violência, fazemos poesia desde sempre. Os poetas nos chegam cheios de imagens para que possamos ver de outra forma o mundo. A Poesia mais do que a prima pobre da literatura é o grito primordial da alma que tenta expressar-se dentro do grupo social e importa continuar  partilhando com o maior número de pessoas nossos olhares.

Jurema Barreto de Souza

Abismo

Neste abismo sem flores ribeirinhas
arrebentou-se a veia
em enfartes escarlates.
Desaguou outono no inverno de morte
e o silêncio falou nela todas as linguagens.

Vera Macedo in Fenda
Orobó Edições

Intransferível Corpo

intransferível corpo que nomeio
tu:perfeita musculatura
     em trajes de púrpura
     ardente de luz

o néctar das galáxias
por tuas veias refinado
transforma-se em lágrima
de ouro que incendeia as faces

        incólume corpo
        incólume mocidade

Carlos Antonio Lopes
in Fenda – Orobó Edições

Vinte Poemas de Amor – XX

tradução de Fernando Assis Pacheco

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

Pássaro

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade. Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada. Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

(in Retrato Natural)    

Soneto da Lua

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas, e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros ?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me pressa
A alma, que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética e indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Vinicius de Moraes

 

 

A Revista Literária A Cigarra está lançando a edição 36, com 42 páginas, capa de Antônio Peticov, quatro cores. Se você deseja recebê-la envie vale postal ou faça seu depósito bancário no BANCO BRADESCO- AG. 0413-8, CC 9867948-0 - SANTO ANDRÉ - CENTRO-SP, no valor de R$ 5,00 (cinco reais), referente ao preço de capa e ela será enviada como carta fechada para evitar extravio. Envie-nos xerox do boleto de depósito para caixa postal 461 -09015-970- Santo André-SP ou o número do depósito por mensagem eletrônica, acigarra@zipmail.com.br.  A Revista A Cigarra não virtual apresenta outros poemas, conteúdos e imagens diferentes do formato encontrado nesta página. Conheça.

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Jurema Barreto

 



Matéria publicada em 01/05/2002   - Edição Número 33