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Editorial

A revista A Cigarra vem participando do Movimento Artistas Cidadãos, nascido em Santo André como atitude possível dos produtores culturais indignados com a violência.

Não apenas pela morte do nosso prefeito Celso Daniel, barbaramente assassinado, mas pela violência cotidiana em todas as áreas da vida dos seres humanos. Realizamos uma Mostra de Artes pela Paz, com artistas de todas artes colaborando voluntariamente e tentando conscientizar a população de que devemos nos manifestar e não deixar que a violência passe a fazer parte de nossas vidas como um fato normal. Outras cidades estão criando seus núcleos de artistas e se manifestando, cobrando atitudes das autoridades competentes. Não podemos deixar que nos anestesiem com lixo televisivo, carnaval e outras tantas formas de distrair nossa atenção para que amanhã estes fatos terríveis sejam apenas notícias velhas. A poesia também pode e deve participar, nossa atitude é a arte. O  artistascidadaos@yahoogrupos.com.br, é  um fórum permanente de discussão e trocas de idéias sobre esse tema tão polêmico. Conheça e participe.

Jurema Barreto de Souza

Quixeramobim

negro assim
arredondado assim afivelado
bem ao lado por debaixo
emburrachado
em direção a mim me sobressalta
negro   afroafrontandoafrodisíaco
encouraçado que me rapta
potenkin seussapato
negro assim seussapato
s e u s s a p a t o  preto assim
seu desenho seu estilo
semicírculos semi-retas
preto assim
seussapato viravolta
seussapato viravolta s e u s s a p a t o
seu chapéu hiperhipnótico
seussapato seu chapéu
quesseráquesserá
cuiabáquixadáquixeramobim
preto assim  s e u s s a p a t o
ai de mim

Regina Pouchain
in Sulfato Ferroso, n. 63, RJ: jan./2002
jupiter@unisys.com.br

Sem título

Se me perguntam porque minto,
Digo que não minto.
Respondo, ainda titubeante, que faço ficção
Se minto, não minto palavras,
Não minto desfechos,
Mas apenas suscito situações,
Recrio lugares, carrego cores,
Interpreto frases impensadas,
Salpico ora silêncio ora interjeições
Exagerando nas vírgulas
E omitindo pontos finais
Não me parece muito claro,
Não me parece nada humano
Estes conversês que afirmam.
No meu pulso primordial
Há ânsia por intervalos intermitentes,
Quase não vejo palavras
Na audição do silêncio consecutivo,
Quase mesmo e apenas reajo
Ao movimento que me confunde
Em atitude e traço,
E se não faço, com força desejo
O que só me é dado desejar.
Não uma exclamação plena
De cansaço e sentido desbotados,
Mas algo como ar comprimido nos pulmões,
A interrogação anterior a cada palavra,
Encadeadora de toda letra,
Propulsora do traço e do aproximar-se.
Deter-me nela é, num só tempo,
Lançar-me num movimento de vírgula,
E apontar um mentiroso
Por detrás de cada ponto final.

Cláudio Guilherme Alves Salla
cgsalla@hotmail.com.br

ORILLA

(de la Casa Extraviada)

He estado en estas playas
no nací en todas ellas
pero sé que a estas distancias pertenezco

Ninguna majestad se instala
entre lo que se me enseña
y lo que recibo

Pero es la orilla y no  el mar
lo que me identifica
No me fue dado el don del buzo
ni mecieron en batíscafo
Mi profundidad yace en la superficie

Allí me soy
a esa porosidad entrada al alma
a la sonrisa del coco
al olor de los almendrones
al sabor de la uva de playa
a la persistencia del salitre
al paso del cangrejo
la serpentina de los cuerpos costeños

Aquí me siento en paz
mientras llueve el peligro

Leandro Area

              

dos rituais


          celebrar a palavra
             todos os dias

               armar o dia
         de todas as palavras

              abrir os olhos
       para todos os sentidos

        celebrar o amanhecer
              de cada sonho
        com todas as palavras.

Ademir Antonio Bacca
In Pandorgas ao Vento- Bento Gonçalves-RS
adebach@italnet.com.br

praia do arpoador


cada manhã
é um ponto de partida pro infinito
e não sei onde todas as linhas se encontram
a maré cheia tem seus mistérios e delícias
rugindo no cangote da areia.

Chicco Lacerda in Simples Flerte-RJ
franjose@uol.com.br

Vida

Vida: cisco
que o vento sempre leva,
a água sempre lava,
o fogo queima sempre
e a terra esconde dentro de si.

Vida: fio invisível,
corrente unida a frágil cadeado.

A vida é de morte!

Ésio Macedo Ribeiro
in Pontuação Circense-SP

A Gênese da Oração

Em estado de poesia
a palavra procria a imagem
e semelhança do homem.

Em estado de poesia
a imensidão dança pequena
no infinito dos olhos
e os pensamentos emoções
molham de lágrimas
as lembranças alegres.

Em estado de poesia
o poeta menino
colhe música com o tato
e a tristeza é canção.

Dílson Lages Monteiro
In  Sabor dos Sentidos
Teresina -PI

OS LEVES PASSOS DE EVA NA
APARENTE MORTE DO TEMPOS

A guardiã da noite avisa
aos amantes nela escondidos
o fim do momento envolvente
na cama onde acolhem-se em chamas:
Cuidado! Vai raiar o dia!
- Ou não seria a cotovia?

A tarde também se despede
com pena de largar a lida
de todos os laços que a prendem
à lucidez, aos poucos dispersa
rumo ao desconhecido sereno
como se retorno não tendo.

Na aparente morte do tempo,
Eva, em seus passos, levemente
pisa o cenário idealizado
em torno do amante, semente.
Se despetala, desfalece
toda vez que se faz em taça

               e se entrega toda...

Gerson Valle in Aparições
Petrópolis- RJ
valle@compuland.com.br

 

TRÍPTICO DO MAR

1.
 
Já não há bestiários neste mar,
jornal aberto entre as sombrinhas
e aquelas ilhas, um poema épico
traduzido sem as entrelinhas.
 
Não reconheço em ti a vertigem
de quem olha do alto, no escuro,
pressentindo sereias e rêmoras;
mas açude, cisterna, aquário,
estampa de um mundo infantil,
emoldurado por gaivotas
e navios de papel, prosaico
como a retórica das ondas.
 
2.
 
Para que permaneças lago,
resistirá a tarde, e contra ela
pouco pode um corpo portátil,
senão esbater-se na janela.
 
E assim, do horizonte esquecido,
ser apenas rumor e espera,
um corpo sem cor nem sentido.
Ainda que o céu se precipite
para dissolver teus limites,
demora cifrar em enigma
o que nunca inteiro se entrega
sem dança, febre ou esgrima.
 
3.
 
Como um corpo vizinho ao fóssil,
o mar desconhece as idades,
tantas cumulou nos naufrágios
até ficar rígido de ossos.
 
Véspera da pirâmide, um muro,
dir-se-ia acerca do mar noturno,
não soubesse que o mar é mais
mar quando não se pode vê-lo,
apenas ouvir em seus ruídos
os passos de um suave assassino,
as engrenagens do relógio,
pulsando contra a eternidade.


Fernando Fábio Fiorese Furtado
Extraído de Corpo portátil (1986-2000) 

 



Matéria publicada em 01/03/2002   - Edição Número 31