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Editorial

Editorial:

Nesta edição A Cigarra deixa o editorial por conta de Patrícia Galvão,
colhido no imperdível PAGU- LIVRE NA IMAGINAÇÃO, NO ESPAÇO E NO TEMPO, de
Lúcia Maria  TeixeiraFurlani,Santos,Ed.UNISANTA,1999
 
"(...) É preciso, na verdade, como dizia Rilke, sofrer como homem e como mulher e ter as alegrias mais profundas da vida, para se ter o poema. Há exemplificação  disso num poema de José Régio em Fado, quando o poeta em seu desespero e solidão sentiu a bênção de vida numa acácia cuja semente fora
trazida pelo vento soão e, jogada na terra, brotou e cresceu...

Além das idéias do século XX, é preciso, portanto, viver e viver intensamente, cada segundo da vida". (Patrícia Galvão, Suplemento de A Tribuna, nº22, 25/8/57)

Dizem que São Francisco era pobre.
Pobre mesmo, coitadinho.
É o que dizem, porque aqui,
bem dentro de mim,
acho que isso é mentira.
 
Como pode ter sido pobre
esse poeta santinho,
se de dia tinha o sol,
se de noite tinha a lua,
se vivendo amor tão grande,
na esperança eterna morreu?
Ele foi rico, seu moço,
muito mais rico que eu!

Milton Andrade
in Inventor de Paisagens - Alpharrabio Edições - 2001 - Santo André-SP

Se passares por Creta vem ao templo sagrado
das virgens, onde mais fundo é o bosque
e do altar sobe um perfume de incenso.
 
Aqui, onde a sombra é a sombra das rosas,
entre ramos de macieiras corre a água
e do rumor das folhas vem o sono.
 
Aqui, no prado onde todas as flores
da Primavera se abrem e os cavalos pastam,
a brisa traz o aroma do funcho.
 
Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças
de oiro, voluptuosamente entorna
o claro vinho  e a alegria.
 
Safo, de Lesbos, a poetisa dos primórdios da Grécia
em hino em louvor a deusa. Do livro Safo de Marion
Giebel. Tradução de Maria Emília Moura, Distri Editora
1980, Portugal.
 
 
DESTINO DO POETA
 
Palavras? Sim. De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
 
Também a luz em si mesma se perde.

Otávio Paz
in Transblanco - tradução Haroldo de Campo - Ed.Guanabara,RJ, 1986
 

A ESTRELA CHOROU ROSA...

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teu quadris.
 

Arthur Rimbaud
in RIMBAUD LIVRE - tradução de Augusto de Campos

 

A medida do abismo

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!

Vinícius de Morais
in Para Viver Um Grande Amor

OS PÁSSAROS

Os  pássaros
descobriram
a linguagem dos anjos
e das nuvens.
 
E ei-los
que voam.

Álvaro Pacheco
in A Geometria dos Ventos - Ed.Record,RJ, 1992



Matéria publicada em 01/08/2001   - Edição Número 24