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O imaginário e o futebol Conrad Rose
Com o profissionalismo, muito se fala que o futebol não é mais o mesmo; e este saudosismo exacerbado mata o que resta: a poética; o imaginário. Claro que mudou, por exemplo: vira e mexe, compara-se o drible do Felipe ao do Garrincha. Verdade que ambos soam como gols, mas aí entra o politicamente correto. Mané estava livre disto, podia bailar sobre a bola quanto quisesse, sem movê-la. Felipe tem a obrigação de conduzi-la ao gol, por respeito ao adversário. Driblar e depois esperar o mesmo João para driblá-lo de novo – clássico de Garrincha, hoje é improvável, e permite desforra. Outro: acabou o bom humor. O sarro sumiu. A crônica colaborou, talvez pelas décadas militares. A transmissão da TV é jornalística. Os debates dominicais, violentos ou apelativos. Isso é um descaso com as crianças. Elas - com olhos lúdicos, imaginam o futebol. Cada qual constrói o seu. Fantasiam-se no time escolhido. Vislumbram-se. Tratar o sonho delas como negócio é cruel, até mesmo se tratando de negócio. Felizmente, o futebol visto como arte - no imaginário da palavra, é hereditário. A efusão é a mesma mediante o gol, para pais e filhos juntos no estádio. Ali, a arte sobrevive; e maravilhar as crianças é dever do futebol. Ali, as crianças permitem Felipe driblar sem constrangimento, como se fosse Garrincha.
Sobre o autor: O escritor Conrad Rose é um observador do comportamento humano que brinca com sua paisagem. Atualmente ministra oficinas de criação literária (conto e crônica) em Curitiba, onde vive
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