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Editorial

“Depois da internet, minha caixa postal nunca mais foi a mesma”, disse-me um amigo. Tudo é muito rápido, os contatos imediatos, centenas de mensagens, mas sinto falta de receber a correspondência de forma tradicional e realizar aquele ritual, embora ainda realize em escala menor, pegar a velha chave, abrir a caixa, reconhecer a letra e saber que foi este ou aquele amigo que a enviou. Entre os amigos daqui ainda mantemos o hábito de enviar cartas, escolher o selo, o envelope, colocar nossa marca pessoal, nossa letra, nem sempre  perfeitamente desenhada como a do computador, mas infinitamente única. Talvez já tenha falado (escrito) sobre isso, mas nunca é demais lembrarmos esses rituais ancestrais. Até quando estaremos conectados? Importante mesmo é nunca perder o contato com a tribo. Somos sim uma tribo, os que escrevem e os que lêem, os que acreditam na palavra que cria um continente de idéias, que com um pouco de sorte podem melhorar o mundo que nos cerca.

Jurema Barreto de Souza

 

Ousadia...

A palavra há em mim.
Arraigada paixão
que funde corpo, alma,
pensamentos...

A palavra há em todos,
assim como estrelas habitam
o vazio do caos.

Por que só em mim
recai a maldição da idéia?

João Antônio da Silva Sampaio
 in Poética da Visualidade

 

Poética Urbana

Entre arbustos
bustos de bronze
tristes estátuas
de graves greves
às chaminés em chamas
que silenciosas refinam
o que de paz não há sinal

Nos trilhos
vagam em vagões
meninos pingentes
fulanos decentes
beltranos pedintes
uns muito tristes
outros quase contentes
no eterno dia-a-dia
da suburbana ferrovia

Zhô Bertholini
 in Poética Urbana

 

LINGUAGEM

OÁSIS:
sol
na ponta do lápis.

Poema:
manhã à deriva
nos lábios.

Neblinas da voz
- os pilares da frase
no acaso.

Alcides Buss

 

ESCREVER

Escrever é sina, espanto e faina
amor; afã de tenaz faxina.
Palavra pôr no que é paina
luz dar a penas ao que ilumina.

Estruma a estrofe dor que suponho
verbo assassino. O poema é mortal.
O verso se esforça, soa bisonho,
quer transcender o idioma banal.

Nutrir-se do mal que o arruína,
banir e amar o impulso medonho.
Verbal é o mel que o determina.

Inscrita na frase do vate tristonho
implore no estro a ilusão cristalina
de ser e estar onde me sonho.

Artur da Távola

Mutação

Para Mallarmé

A palavra inusitada desponta repentina,
fagulhas no enredo.
E, como toda nota brilhante em meio a insípida melodia
imprime elásticos motivos,
desce o raio em meio ao rio.

A surpresa engendra o novo por si só
buraco negro..., sumidouro, arqueofagia.
A palavra repentina, o rasgo da sintaxe
que o léxico é a rotina da palavra.

A palavra nova, súbita surpresa,
a palavra/caleidoscópio:
baile de brilhos
mas cacos de vidro
a surpresa é o engasgo do instante,
mas não é nada senão segundo,
broto de luz no lodo plano.

A metáfora é o sal...

A palavra insuspeitada é cor
e é dor e é nada noutro enredo;
é matriz da surpresa
se renova, ilude o tempo...
Primícias...
Rumor
Rumoroso meio;
mais um
mais um fim.

Edmar Monteiro Filho

 

POEMA

A poesia vai sendo assim
escrita, cardo-santo  no
estômago. Aos poucos,
outra luz na noite diurna,
azul que costura o corpo
das crianças. Em glebas,
os fonemas se encontram,
os amargos e os mais doces.
A poesia vai sendo assim
escrita. Enquanto
houver tardes, âmbulas,
cada palavra será guardada
em óleos santos.

Eustáquio Gordone de Oliveira

 

BALA PERDIDA

Teu olhar
acertou em cheio
o meu coração.

de pedras & homens

a pedra
será sempre pedra.

por mais que o homem
a molde,
lhe dê formato
ou outra forma,
não deixará de ser fria,
pedra que e.

alguns de nós,
também.

Ademir Antonio Bacca

 

LONG GOLD WINTER

a tarde cai esnobe e, de
certa forma, fúnebre.
desaba sobre a idéia
de distância. tenso e

agridoce jogo de danação
- íngreme perspectiva de
luz descansa na mi do
violão - em silêncio.

ruínas de unhas despencam.
todos os planos juntos.
o parto da lua refletido

na janela (adentrando
o apartamento)
tempera uma lágrima.

 Fabiano Calixto

 

PELE CONTRA PELE

então a brisa nos brinda
com sua auréola de nadas

& a vida se resume
ao agora:

-veja, meu amor
palavras no vapor do ar

- a vidraça se embaça

vento frio no rosto, olha
é inverno
(nenhuma flor no orvalho)

pele contra pele:
nosso melhor agasalho

Ademir Assunção
In Zona Branca


A Noite Por Dentro

Cego
não é aquele
que segue,
(à frente)
procurando repostas,
apedrejado pelas costas
como um anticristo
mas aquele
que vem atrás,
atirando pedras,
achando que nunca será visto.

Ivan Wrigg Moraes
in Libergrade



Matéria publicada em 01/07/2001   - Edição Número 23