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Editorial

Nós à luz de velas. Seria romântico se não fosse trágico. Saímos da Era Virtual para reentrar na Era Medieval. Cortinas de fumaça para distrair-nos dos verdadeiros fatos, os quais não consigo atinar, mas suspeito. O Surrealismo não teve grande repercussão no Brasil, e nem André Breton acreditaria que há um país como esse. O Brasil, para mim, é o país mais fantástico que existe, mas juro que muitas vezes tenho a impressão de que vivo num conto surrealista, não sei o quanto é de verdade e o quanto de fantasia vivemos. De qualquer forma a poesia é um argumento para manter a sanidade e que uma hora os surrealistas do poder colocarão um ponto final nesta história. Pena é que são muito criativos e logo criarão outra e muitos sapos para engolirmos. Mas como diz meu amigo Zhô Bertholini: “Eu engulo, mas não mastigo” .  Enquanto isso,  uma homenagem ao poeta Lau Siqueira e saúdo os mestres e os novos poetas que tem freqüentado esta página.

Jurema Barreto de Souza

O Discurso

"So schwätzt und lahrt man ungestört;
Wer will sich mitden Narr´n befassen?
Gewönlich glaubt der Mensch, wenn er mur Worte hört,
Es müsse sich dabei doch auch wasdenken lassen."

Goethe

Será que a linguagem tem razão?
E a percepção terá linguagem?
A razão... Abrigará a percepção?
Existe mesmo alguma engrenagem?

São possíveis discursos;
Discursos passíveis de destruição;
Respiram cursos e mais cursos,
Mas não existe a correta concepção

Os erros estão tanto na direita
quanto posicionados na esquerda:
Posso defender a desfeita
E relativizar administrando a perda

O discurso primeiro
Sempre resultará no incerto
O discurso segundo
Também poderá ser um inferno

Um se disfarçará de todo bom
Um se mascarará perfeito
A dialética dos dois talvez será impossível
Pelo consolidar dogmático feito

Ou então a dialética dos dois aglutinará seus males
Não adiantará de nada nos livrarmos desses pares
Surgirá outra idéia antítese para ser reprimida
A veia imperialista aparecerá para a população oprimida

Sobretudo sobre tudo podemos fazer discurso
Sobre as ilusões que matamos e morremos por
Sobre nomes vãos que imprimimos significação de amor
Sobre o subsolo e a atmosfera que nos envolvem.

Sobre situações que nos consomem
Sobre impressões que desejamos serem interiorizadas
Sobre opiniões que almejamos tornar imensas
Sobre correntes filosóficas que moldam o que pensas

Sobre quem somos, sobre o que podemos
Sobre o que limitaremos, o que liberaremos
Sobre quem dominamos, quem dominaremos
Sobre quem amamos, quem odiaremos

Sobre o que é o mundo, a realidade, a metafísica
Sobre o que é o conhecimento, a ciência, a física
Sobre o que é a arte, a verdade, a beleza e a vaidade
Sobre o que é o certo e o errado, a médica da ética.

Sobre o que é a cosmologia, a logia, a poesia
Sobre o que é filosofia, sabedoria, cultura e vida
Sobre o que é natureza, sutileza, oriente, ocidente,
Sobre o que é o universo, o avesso, o inverso, o verso..

O todo nem se preocupa com o discurso

O discurso se ocupa com pouco do aparente tudo
Tudo apenas dança sua dança

Coitado do discurso;

Nada percebe o Todo.
O Todo percebe Tudo,
Tudo percebe Nada,
Nada percebe Tudo

Helvídio Neto
poetadeverdade@terra.com.br

 

Rio Jaguarão

e assim
fui engolindo o tempo

bebendo as vinhas
do esquecimento

minhas mentiras íntimas
doces folias de momento

a vida
eu mesmo invento

 Lau Siqueira
(do livro
O Guardador de Sorrisos)

 

tudo zen

meu sonho
tem duas asas
e um cheiro
de esgrima

a arte
e a guerra
dependem
do clima

(...) 

estribilho

sempre tranqüilo
na hora da morte
                   direi

licença
vou dar um cochilo

(...)

vetusto

o que guardam
esses instintos

(catálise que nem
              empeça)

palavras cospem
intestinos de um

Lau Siqueira

 

Poelogia

melhor poema
é a sede que o insinua

vapor de imagens
em ramos de língua

secreção de ócios
       vinhos biliares

       elemento cromo
       tal cromossomos

Lau Siqueira

 

Clave Lunar

os pastos
da tua boca
depurados
pela enzima
do desejo
transmutam
silêncio
em beijo

Lau Siqueira

 

Noctívola

esses trapos
escorrendo de boca
                 emborca
                 ruídos
                 no
                 não
                 nem
                 por que
                 hay
                 vuelos
                 ok?!

tangência lipo

membranas da fala
quando fêmea

recinto esquisito
do juízo
                     a
                     s
                     s
                     i
                     m

                intuí
                fruí

y tanto quanto cá
                  aqui

e
  s
    c
      a
        t
         o
           logica
                   mente
              
                        fui!

Lau Siqueira
lausiqueira@uol.com.br

 

ELEGIA: indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado.
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
o que ele guarda, quieto, tão de perto.
o corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
o que o meu anjo branco põe não é
o cabelo mas sim a carne em pé.
        Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima em baixo, entre.
Minha América! Minha terra  à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
onde cai minha mão, meu selo gravo.
        Nudez total! Todo prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
o olho de tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
        Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

John Donne,
poeta, prosador e clérigo - 1572/1631
Tradução: Augusto de Campos

 

É pra reciclar

Lá vai
o homem e a carroça.
Garrafa, metal,
roupa velha, jornal.
(grito) Garrafeiro !
(mito) Recicla, recicla, recicla.
 

João Alberto Tessarini
themaprint@bol.com.br 

 

O Grandioso

XLI

- Onde guardar o desejo?
Para ele não há cofre
o desejo eu o quero indômito
solto na pradaria verdejante
belo, como um cavalo árabe
marchando, pisoteando
a alma de minha poesia.

Silvia Jacintho in Chama
silviajacintho@hotmail.com



Matéria publicada em 01/06/2001   - Edição Número 22