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Caótimo Gabriel Perissé
A educação brasileira encontra-se em situação caótica. O caos é a boca aberta, de pasmo, de medo, de sono. É o abismo, a sensação de queda, a perda do chão, a indecisão. O caos é terrível, se não formos melhores. O caos é o fim, ou o começo. Daí a necessidade de uma atitude caótima. O caos é caótimo se soubermos reativar as nossas possibilidades — a energia estrangulada pela inércia. O cosmos nasce do caos. Mas o cosmos não é fruto do acaso. Do caos nada vem, se nada se faz. Todos, ao acordar pela manhã, sentimo-nos caóticos. Olhamo-nos no espelho, e o espelho nos denuncia a face confusa, o olhar emergindo há pouco dos mares do sono. Os homens fazem o que podem. As mulheres não se resignam jamais. Diante do caos matinal transformam-no em cosmos, utilizando os seus cosméticos! Os livros da minha biblioteca estão caoticamente distribuídos. A única ordem que conhecem é a falta de ordem. Sei que tenho no meu escritório mais de 5 mil títulos. Eles me envolvem como uma tenda, e dentro dela sinto o influxo caótimo das palavras desses autores todos. E sempre encontro o livro de que preciso. Pessoas que sofrem de normalpatia fogem da convivência com o caos. Querem destruí-lo, e são engolidos pela força que dele emana. O caos engole os medrosos, os que não sabem desbravar o bravo caos. O caos tem suas próprias regras. E são rígidas. A educação brasileira encontra-se em situação caótica. É curioso ver com que espírito de organização definimos os números da calamidade. O brasileiro lê em média 2 livros por ano. Um no primeiro semestre. Outro no segundo. Mas não me perguntem os títulos desses 2 livros! E esta é a média... o que significa que milhões não lêem nada. Segundo o IBGE, entre os brasileiros maiores de 10 anos, 9,6% são analfabetos. Mas não são estes apenas a puxar para baixo o desempenho do leitor brasileiro. Os não-leitores mais problemáticos são os que não lêem, embora saibam ler. São os alfabetizados que não gostam de ler, e até se orgulham disso... Este caos é caótimo, se imaginarmos meios para transformar os brasileiros num povo de leitores compulsivos. Para lermos em média 7 livros por ano (como na França), não bastará tirar 14,9 milhões de brasileiros da caverna desletrada. Você, eu, todos nós precisamos ler mais. E ler melhor.
Matéria publicada originalmente no Correio da Cidadania Sobre o autor: Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP), professor do Programa de Mestrado em Educação da Uninove (SP), autor de vários livros, entre eles Literatura & Educação (Ed. Autêntica) e Os Sete Pecados Capitais e As Virtudes da Educação (Ed. Vieira & Lent).
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