![]() |
|
![]() |
Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka |
|
Bem-vindo(a) visitante 18586299, 06/09/2010 • www.kplus.com.br |
|
Sejamos Medíocres! Gabriel Perissé
Conhecer uma nova palavra, consultando o dicionário pai dos inteligentes , é levantar um pouco o manto que cobre a realidade, e, com os olhos arregalados, ver o que de fato existe. Gosto de folhear o dicionário, pular de um verbete a outro, fazer ilações etimológicas, espantar-me com a polissemia de algumas palavras, descobrir coisas que já sabia e de que não tinha consciência. Hilotismo, por exemplo. Palavra que se refere àquele estado de ignorância e mediocridade em que muitas pessoas se encontram ao nosso redor. Provém do grego: hilota era o membro da classe mais baixa em Esparta, o escravo sem direitos e sem esperança. E a esse estado de hilotismo somos reduzidos muitas vezes pelos próprios dirigentes do país, na medida em que governar gente sem liberdade e iniciativa é muito mais cômodo. No entanto, trata-se também de uma decisão suicida. Se é mais fácil governar analfabetos ou alfabetizados sem idéias próprias, é também mais perigoso. Com o tempo, o que era vantagem torna-se autofagia. Um povo inculto é manipulável, mas é também potencialmente mais rebelde, daquela rebeldia violenta, sem princípios e sem objetivos, daquela rebeldia selvagem que se traduz em vandalismo, ódio cego ou simples incompetência. Manipular um contingente de medíocres é, à primeira vista, sinal de esperteza. Mas um dia os medíocres começam a solapar a manipulação. Não através da inteligência e do oferecimento de alternativas. Os medíocres, no auge da sua mediocridade, nem sequer podem ser manipulados. Tornam-se coisa amorfa, pesada, inconsistente, inflexível, morta. O grande não-investimento na educação e na cultura do brasileiro já está gerando um estado de anemia intelectual e fraqueza de caráter que se, por um lado, diminui os riscos de uma revolução social, por outro impede qualquer crescimento duradouro, o florescimento artístico e intelectual que está na base de uma nação rica de valores e personalidade. O sub-povo é manipulável, mas se transforma também em peso morto. A intelligentzia omissa terá de carregar o cadáver daqueles que deixou de orientar, ensinar e alimentar. Sejamos medíocres! A mais triste vingança das crianças e jovens contra os ministros da incultura e deseducação! Sejamos medíocres! A mais infeliz vingança dos professores mal remunerados contra as instituições de ensino! Sejamos incapazes de criar, criticar, inventar saídas! A mais terrível vingança dos artistas contra uma sociedade pragmática e consumista. Sejamos escravos inúteis, desmotivados, sem fôlego, sem ânimo, e sem ênfase! Sobre o autor: Gabriel Perissé (perisse@uol.com.br), carioca, 37 anos, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é professor universitário, coordenador-geral da ong literária PROJETO LITERÁRIO MOSAICO (www.escoladeescritores.org.br), criador e apresentador do programa de TV LER, PENSAR E ESCREVER, autor de um livro com este mesmo título (www.arteciencia.com.br/referencia/lerpensar2.htm), e autor de dicas gramaticais e etimológicas para o ZAZ (www.zaz.com.br/vestibular). |