Fale conosco | Cadastro | Indique este site | Como publicar | Links Indicados | Editora Komedi | Webka


Bem-vindo(a) visitante 18586299, 06/09/2010 • www.kplus.com.br


Busca no Kplus

Digite um assunto específico que deseja encontrar no site

Matérias

Leitura e Depressão
Gabriel Perissé

Quem ler verá
Gabriel Perissé

Um exercício de liberdade
Dalila Teles Veras

Descoberta ou resposta certa
Gabriel Perissé

Um Ano Promissor ou de Promessas?
Mário Luís Magnani

Serviços

Mais de 70 Jornais Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Revistas Nacionais e Internacionais
Mais de 100 Museus do Mundo
Programas de Busca na Internet - Nacionais e Internacionais

Revistas

 

Sejamos Medíocres!

Gabriel Perissé


Gabriel Perissé

Conhecer uma nova palavra, consultando o dicionário — pai dos inteligentes —, é levantar um pouco o manto que cobre a realidade, e, com os olhos arregalados, ver o que de fato existe.

Gosto de folhear o dicionário, pular de um verbete a outro, fazer ilações etimológicas, espantar-me com a polissemia de algumas palavras, descobrir coisas que já sabia e de que não tinha consciência.

Hilotismo, por exemplo. Palavra que se refere àquele estado de ignorância e mediocridade em que muitas pessoas se encontram ao nosso redor. Provém do grego: hilota era o membro da classe mais baixa em Esparta, o escravo sem direitos e sem esperança. E a esse estado de hilotismo somos reduzidos muitas vezes pelos próprios dirigentes do país, na medida em que governar gente sem liberdade e iniciativa é muito mais cômodo.

No entanto, trata-se também de uma decisão suicida. Se é mais fácil governar analfabetos ou alfabetizados sem idéias próprias, é também mais perigoso. Com o tempo, o que era vantagem torna-se autofagia. Um povo inculto é manipulável, mas é também potencialmente mais rebelde, daquela rebeldia violenta, sem princípios e sem objetivos, daquela rebeldia selvagem que se traduz em vandalismo, ódio cego ou simples incompetência.

Manipular um contingente de medíocres é, à primeira vista, sinal de esperteza. Mas um dia os medíocres começam a solapar a manipulação. Não através da inteligência e do oferecimento de alternativas. Os medíocres, no auge da sua mediocridade, nem sequer podem ser manipulados. Tornam-se coisa amorfa, pesada, inconsistente, inflexível, morta.

O grande não-investimento na educação e na cultura do brasileiro já está gerando um estado de anemia intelectual e fraqueza de caráter que se, por um lado, diminui os riscos de uma revolução social, por outro impede qualquer crescimento duradouro, o florescimento artístico e intelectual que está na base de uma nação rica de valores e personalidade. O sub-povo é manipulável, mas se transforma também em peso morto. A intelligentzia omissa terá de carregar o cadáver daqueles que deixou de orientar, ensinar e alimentar.

Sejamos medíocres! A mais triste vingança das crianças e jovens contra os ministros da incultura e deseducação! Sejamos medíocres! A mais infeliz vingança dos professores mal remunerados contra as instituições de ensino! Sejamos incapazes de criar, criticar, inventar saídas! A mais terrível vingança dos artistas contra uma sociedade pragmática e consumista. Sejamos escravos inúteis, desmotivados, sem fôlego, sem ânimo, e sem ênfase!

Sobre o autor:

Gabriel Perissé (perisse@uol.com.br), carioca, 37 anos, Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é professor universitário, coordenador-geral da ong literária PROJETO LITERÁRIO MOSAICO (www.escoladeescritores.org.br), criador e apresentador do programa de TV LER, PENSAR E ESCREVER, autor de um livro com este mesmo título (www.arteciencia.com.br/referencia/lerpensar2.htm), e autor de dicas gramaticais e etimológicas para o ZAZ (www.zaz.com.br/vestibular).



Matéria publicada em 01/06/2000   - Edição Número 10