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Nos trilhos vazios da memória

Jorge Pieiro


O mais novo romance de R. Roldan-Roldan explora a própria linguagem e, por consequência, o próprio ser. Em Boa Viagem, Sheherazade ou A Balada dos Malditos, o autor constrói um personagem sem memória que, ao longo de 144 páginas, defronta-se com muitos nomes, como se buscasse a si mesmo, verdadeiramente.

''Você é um ser incompleto. Como os da ficção''
(R. Roldan-Roldan)


O trem é, por excelência, um meio de transporte que mais serve à linguagem das transfigurações. Talvez por sua estrutura disforme, talvez pelo estigma da falsa lentidão proporcionada pela sua velocidade de enfado ou pelo mistério que se pode encerrar em cada um dos seus compartimentos. É provável, ainda, que a escolha do trem se dê pela necessidade de se estabelecer planos paralelos, vidas paralelas, como se destinos exatos pudessem ser incorporados a seus trilhos; ou, ao contrário, neles, fosse mais do que provável o descarrilamento catastrófico das fantasias ou das certezas.

É, fundamentalmente, neste veículo, também, alimentado pela força da metáfora, que um escritor ''nascido na Europa, criado na África e radicado no Brasil'' produz uma obra circular, de retorno repetido ao lugar-nenhum, e apropria-se de uma série de paisagens semi-artificiais embaralhadas pela presença inusitada de personagens reinscritas pela memória das leituras.

Em Boa Viagem, Sheherazade ou A Balada dos Malditos, R. Roldan-Roldan ressuscita - é provável que de forma inconsciente - as idéias de Bergson. Para este filósofo, ciência e intuição são regidas, respectivamente, por um eu superficial, que cristaliza idéias e cria aparentes situações descontínuas para a sobrevivência material do homem; e por um eu profundo, que flui como uma unidade em perpétua mudança e constitui o aspecto espiritual do ser humano. Esse progresso na continuidade, segundo Bergson, é unificado pela memória.

Seguindo o avesso desse pensamento filosófico, pode-se pensar que Roldan construiu um personagem em progresso na descontinuidade, o que o torna desmemoriado. Assim é que este homem sem memória defronta-se com muitos nomes, como se buscasse a si mesmo, verdadeiramente. Sem acreditar que se chama Bogdan Tangerescul, ora faz-se do muçulmano Abdelkader ben Youssef, ora do judeu sefardita David Benchetrit; e é ainda transformado no poeta errante Léo Lins ou qualquer outro que possa ser criado pelas mulheres fantasiosas que para ele convergem: Ljubica, Sabbah Oufkir ou Sheherazade.

Na verdade, esse ''Homem-Que-Era-Outro'', perplexo diante da sua impossibilidade de saber-se, vive a conduzir-se, sem razões, a mundos paralelos, que cada vez mais o distanciam da sua identidade. Se, a princípio, a não-memória pode conceder a esse personagem-narrador desapego e ''uma certa liberdade de ação'', logo o torna sombrio. Uma angústia que se desfaz em doses de pequenas mortes, nos encontros com as mulheres, amantes de fogo, provocadoras de cinzas.

No entanto, a própria narrativa transforma o personagem em fênix. A profunda necessidade de escrever do narrador, faz com que se alente a possibilidade de recuperar a memória, mesmo com poucas palavras, como se o silêncio reproduzisse cachoeira de verbos e uma profusão de narrativas em noites profundas ou baladas desautorizadas tomassem conta do mundo.

Também poeta e contista, o autor dos romances Azeviche ou Nossa Senhora do Sagrado Sexo e O Bárbaro Liberto - Mnaloah (2º lugar do Prêmio Internacional ''Marengo d'Oro'', em 2002, na Itália), com esta obra, completa a trilogia da ''in-identidade, campo aberto para outras narrativas ou baladas tão bem construídas nas margens epifânicas do verbo'', conforme aponta no prefácio da obra, o poeta e crítico R. Leontino Filho.

Boa Viagem, Sheherazade... é um romance que explora a própria linguagem e, por conseqüência, o próprio Ser. Uma escrita que, a exemplo do seu personagem, busca a sua face, o seu ensejar-se ao leitor. A esse destinatário, Roldan surpreende pelo desembaraço com que saca a moldura das expectativas, quer seja pela multiplicidade de revelações insólitas, quer pelo naturalismo das cenas de sexo, ou ainda, pela negação de princípios, sejam eles do fundamentalismo islamita, do catolicismo imposto ou da judaica errância.

Roldan-Roldan, ao investir na linguagem corrente, tanto se aproxima da consciência modernista, quanto do exílio caótico da pós-modernidade, para onde tantos escritores se dão como destino. Porém, diferenças fundamentais podem ser encontradas nos arranjos da sua narrativa: a simplicidade com que a trama é urdida e a possibilidade dos vários efeitos produzidos. E mais, a reiterada reflexão, geradora de um discurso aberto, e os limites dos paradoxos que tendem a revelar a eterna busca - entre o real e o ficcional, o trivial e o metafísico, o referencial e o poético -, completam os vazios da sua singular ficção.


Sobre o autor:

Jorge Pieiro é escritor e professor de literatura, artuculista do site Vida & Arte.



Matéria publicada em 01/06/2003   - Edição Número 46