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Notas sobre o livro "Mais que os nomes do nada" José Luiz Dutra de Toledo
"A criação do que existe é uma tarefa infinita", "existir é o próprio caminho." Ao ler o livro Mais que os nomes do nada, do poeta Aricy Curvello (São Paulo - Editora do Escritor / Luz e Silva Editor - 1996) me senti diante de uma das mais poéticas sínteses do indivíduo/mundo uno/fragmentado contemporâneo assumida por alguém conhecido/ nomeado ou chamado de Aricy Curvello!... Um livro heraclitiano, recheado e sofisticado por exercícios estético-literários lúdicos, experientes e críticos (a palavra que vai além da palavra): uma obra que, como salienta o crítico Carlos Menezes em sua coluna "Estante" no jornal O Globo - edição de 21 de Setembro de 1980, mostra/ revela um escritor "igualmente preocupado com a transformação do mundo e com a forma literária". Um trabalho literário que me relembrou/ citou José Afrânio Moreira Duarte, João Guimarães Rosa, Maiakovski, Henriqueta Lisboa, Eunice Arruda, Fábio Lucas, Ascendino Leite, Márcio Sampaio e Carlos Drummond de Andrade. "Ao silêncio empurra o nada" (p. 12). As frases são expressões faciais? Máscaras? Ou expressões/ trovões em olhares relâmpagos? Tudo é sobretudo e sobrenada. "Sentir sem poder de captura" (p. 17). As palavras também são realidades que expandem a realidade. O ovo que não veio de uma galinha, nem de uma serpente, a cor incolor, a dor indolor, fingir/frigir o que deveras me aflige ou... amálgama siderúrgico de esquecimento e memória, Itabira e Uberlândia, exílio e redenção? Nunca me ensinaram jogar pôquer e Gustavo Capanema abriu portas para Rodrigo Mello Franco, Oscar Niemeyer, C. Drummond, C. Portinari e Lúcio Costa. O dentro e o fora, o incluso e o excluso: que confuso!... Entre camas, escamas, barbatanas, banhas, óleos, banheiros, cafés e trajetos de ônibus, viver é todos os verbos e "apenas nós significamos os significados" (p. 22). Camadas de amor superpostas sepultam os amores subterrâneos/ apagados, outras manhãs, outras maçãs, impossível dar nome ao que some ininterruptamente e eu agora só sou manchas num lençol recolhido à lavanderia de um hotel? Ruínas? Sementes de mentes loucas que mentem? Todos nós reeditamos continuamente a história de Tróia. Brasília bastilha recoberta por decorativas pastilhas/escamas, com seus jardins de cactáceas tecnocráticas ardilosas (ou ardorosas) continua tentando ser a capital da era dos analgésicos. Me empresta uma alfaia para eu ir a uma posse? "Nunca, nunca amanhece diferente", ó Alvorada idolatrada salve, salve!... "Esperança também cansa" (p. 37). As sementes só florescem uma vez apodrecidas, História é um contínuo apodrecimento irreversível. Você é um espetáculo que se desmancha e eu sou as manchas, as nódoas, as pegadas... relâmpago dentro do labirinto. Somos habitados por muitos Pessoas. E também, por muitas horas, desabitados. "Até o que excluirmos nos incluiu" (p. 42). Ugo Cerletti, por diversas vezes, foi ao matadouro de Roma observar como acalmavam os porcos antes do abate e, assim, acabou inventando a máquina que dá eletrochoques nos internos de hospitais psiquiátricos. Mas nenhuma máquina apaga as camadas de tempo gravado atrás das nossas portas e comportas. Nossas "dores ilegíveis" (p. 46). "O que é Deus e o que é fera?" (p. 50). "Os sonhos passam" (p. 51). O verniz de tartarugas nos vasos de antúrios da mamãe: também sou Proust!... "O que vejo não mais verei" (p. 53). Aves coloridas em estandartes celestiais da Amazônia pós-jesuítica. A passagem das opiniões ilusórias... perplexidade!... Estamos acampados no provisório. Quero morar num oratório. Os que confundiam exportar o país com o desenvolvimento nacional tinham razão? Ó!... Salve o braço mecânico! Louvado seja! "O Brasil é muito longe dos operários" (p. 60). O que buscamos é mortal. "Hoje é ontem" (p. 65). Nos Estados Unidos ouvimos palmas e aplausos que ecoam da palma de uma só mão!... Nas casas, televisões eternamente ligadas!... (p. 35). Precisamos de mais cemitérios para os nossos cães! Medusas, algas, sardinhas, tubarões e outros peixes roeram o corpo de um dos náufragos de uma grande barca que, em plena noite, atravessava a baía da Guanabara, desfigurando-o e, incorporado pelos vivos do Atlântico, hoje "sua respiração percorre o litoral" (p. 77). "Ainda és o que foste?" (p. 78). "Negar é afirmar" (p. 80). "Sobreviver já é vencer". - Thomas Mann. Sobrevivemos ao que vivemos. A força enganosa das nossas esperanças decide os nossos destinos. Ou revela-lhe o que a ti há muito pertence! (p. 82). As coisas só duram enquanto estão sendo construídas. "A vibração das aparências não é o berço das coisas" (p. 89). "Mais que palavra há na palavra" (p. 93). "Ser é uma invenção constante" (p. 94). "O que se vai se nada permanece?!..." (p. 95). Só li este livro de Aricy Curvello, publicado no ano de 1996. Impressionou-me a atualidade da poesia deste mineiro radicado no Estado do Espírito Santo - Brasil! 17 de Fevereiro de 2003. Sobre o autor: José Luiz Dutra de Toledo, professor, cronista, Mestre em História pela UNESP de Franca/ Estado de São Paulo (desde 1990); Prêmio Clio - 1992 da Academia Paulistana da História; organizador da Hemeroteca e da Biblioteca da Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto/SP; ex-professor das Faculdades Barão de Mauá de Ribeirão Preto/SP, visitou em 1999 o Uruguay em busca de textos de/ e sobre Lautréamont e proferiu palestras sobre a presença homossexual na História e na Literatura Brasileiras em Lisboa e Oporto em Janeiro do ano 2000; desde 1967 colaborava com jornais, suplementos culturais, revistas de 14 estados brasileiros e com vários sites literários (internet); nascido em Tabuleiro - Minas Gerais e falecido, aos 52 anos, em 03 de julho de 2004.
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