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A Cidade (Re)Criada pela Arte

Dalila Teles Veras


Dalila teles Veras

Antes que nos transformemos em estrangeiros, a despeito da violência e do medo, será preciso deixar a vida murada, a vida espiada por circuitos fechados de televisão, e adotar o olhar para assimilar e devorar a cidade mutante, desvendar-lhe o avesso de seus cartões postais. Ver simplesmente, como quem olha um belo e incompreensível caleidoscópio, não é a mesma coisa que olhar. Ver a cidade por um olhar inquieto ou pela ótica da arte e da poesia, é estar lá, e não apenas ver, como queria Barthes.

A urbe como matéria de poesia e de ficção; a rua como extensão da casa, a multidão como extensão da família, o olhar e a palavra como instrumentos de registro: a cidade, com seus sons, cores e ritos, (re)criada pela arte.

Poetas, seresteiros, pintores, músicos correi, é chegada a hora de pensar a cidade como espaço literário e artístico; o espaço urbano e sua interferência na criação. Olhar a cidade sem olhos globais, paisagem inquietante e singular do planeta, amalgamando a visão do momento com a bagagem cultural acumulada pode transformar-se em experiência única e enriquecedora, mais do que compromisso ético, compromisso estético. Não há caminhos fáceis na arte, sabemos (haverá na vida?).

Começar por separar da multidão os corpos que, assim, deixam de ser apenas corpos (como certas palavras, na página, deixam de ser palavras para serem – ou não – poesia) e transformam-se em protagonistas da história e também personagens de outras histórias. Identificar as marcas localistas e a sua peculiar identidade, como sinais de universalidade.

Observar os transeuntes e, apesar de sua aparente pequenez humana diante da arquitetura e paisagem urbana, enxergá-los maiores que os monumentos. Registrar a solidão do homem moderno no geometrismo da cidade, a presença humana como elemento da paisagem. Não esquecer dos excluídos e dos loucos, a cidade também como corpo incômodo, questionador e inquietante.

A cidade olhada, assim, sem provincianismo, é, afinal, uma janela aberta para o mundo.

 

Sobre a Autora:

Dalila Teles Veras, natural do Funchal (Madeira-Portugal), 1946. Radicada no Brasil desde 1957 (São Paulo, Capital) e desde 1972 residente em Santo André (SP).
Publicou, entre outros, os livros Lições de tempo (1982), Inventário precoce (1983), Madeira: do vinho à saudade (1989 - Portugal), Elemento em fúria (Teresina - 1989), A Palavraparte (1996), todos de poesia, e A vida crônica (1999), crônicas.

Participou de quase duas dezenas de coletâneas no Brasil e no exterior. Possui poemas traduzidos e publicados na Espanha, França, Itália, EUA, Cuba e Portugal. Colabora com a imprensa cultural de todo o Brasil. É diretora-proprietária da Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura, em Santo André, SP, centro cultural que, desde 1992, promove oficinas, recitais e semanas culturais, e já editou cerca de 40 livros sob sua chancela. De 1992 a 1994 editou, em conjunto, a revista literária Livrespaço, ganhadora do prêmio APCA 1993. Foi Diretora e Secretária Geral da União Brasileira de Escritores (SP) por três gestões (1986/88, 1990/92 e 1994/1996). Assina uma coluna semanal (Viaverbo) no Caderno Cultura & Lazer do Diário do Grande ABC desde 1995. É editora da revista de debates Em Movimento.



Matéria publicada em 01/05/2000   - Edição Número 9