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A Cidade (Re)Criada pela Arte Dalila Teles Veras
Antes que nos transformemos em estrangeiros, a despeito da violência e do medo, será preciso deixar a vida murada, a vida espiada por circuitos fechados de televisão, e adotar o olhar para assimilar e devorar a cidade mutante, desvendar-lhe o avesso de seus cartões postais. Ver simplesmente, como quem olha um belo e incompreensível caleidoscópio, não é a mesma coisa que olhar. Ver a cidade por um olhar inquieto ou pela ótica da arte e da poesia, é estar lá, e não apenas ver, como queria Barthes. A urbe como matéria de poesia e de ficção; a rua como extensão da casa, a multidão como extensão da família, o olhar e a palavra como instrumentos de registro: a cidade, com seus sons, cores e ritos, (re)criada pela arte. Poetas, seresteiros, pintores, músicos correi, é chegada a hora de pensar a cidade como espaço literário e artístico; o espaço urbano e sua interferência na criação. Olhar a cidade sem olhos globais, paisagem inquietante e singular do planeta, amalgamando a visão do momento com a bagagem cultural acumulada pode transformar-se em experiência única e enriquecedora, mais do que compromisso ético, compromisso estético. Não há caminhos fáceis na arte, sabemos (haverá na vida?). Começar por separar da multidão os corpos que, assim, deixam de ser apenas corpos (como certas palavras, na página, deixam de ser palavras para serem ou não poesia) e transformam-se em protagonistas da história e também personagens de outras histórias. Identificar as marcas localistas e a sua peculiar identidade, como sinais de universalidade. Observar os transeuntes e, apesar de sua aparente pequenez humana diante da arquitetura e paisagem urbana, enxergá-los maiores que os monumentos. Registrar a solidão do homem moderno no geometrismo da cidade, a presença humana como elemento da paisagem. Não esquecer dos excluídos e dos loucos, a cidade também como corpo incômodo, questionador e inquietante. A cidade olhada, assim, sem provincianismo, é, afinal, uma janela aberta para o mundo.
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