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Editorial

O novo milênio se aproxima e muito ainda está por fazer. Percebemos que por toda parte a Poesia nunca esteve tão viva. O progresso por mais fascinante que seja, não preenche no ser humano a necessidade de voltar-se para seus sentimentos e descobrir-se. E por isso continuamos insistindo neste exercício de liberdade. Estará circulando no ano 2001, agenda preparada pelo Banco Volkswagen, com projeto gráfico do designer, artista plástico e poeta João Antonio da Silva Sampaio. Participam seis poetas: Tarso Menezes de Melo, Dalila Teles Veras, Fabiano Calixto, Jurema Barreto de Souza, Zhô Bertholini, Rosana Chrispim e seis artistas plásticos: Valdo Rechelo, Alexis Iglesias, Edson Lourenço, Paula Pedroso, Sérgio Guerini, Paula Caetano. Ainda, para 2000 acabar em festa, Glauco Mattoso nos envia o livro Panacéia e Luiz Roberto Guedes seu Calendário Lunático. Para a celebração nosso amigo Sergio Campos, do livro Vinho Dá Poesia, ele certamente estará brindando com as estrelas e sempre lembrado por nós. Se você deseja conhecer mais sobre este poeta visite o site da Revista Agulha:www.agulha.cjb.net
Conheça também o Telescópio: é www.aginterior.com.br/telescopio.

E para todos um grande e luminoso novo milênio. 

Jurema Barreto de Souza

Espaços

no espaço o silêncio
de marceau
à luz, escuro
e grávido de som
um gesto
ofício mudo
lúdico
anti-músico
guardando
um pássaro
em cada pulso

Tarso Menezes de Melo

 

Vigília

Meus olhos de lince
farejam o caos
à busca de deuses.
noturnos, os meus olhos
percorrem e decifram o breu
: tentativa de vislumbrar caminhos.
as sentinelas dormem
e os meus olhos, faróis
velam a noite
à luz de sua própria luz

Dalila Teles Veras 

 

espera

a janela aberta
da cozinha
as mãos
os pratos limpos
uma hora
de música
um quinto
cigarro
para passar o tempo
rumor de fresta
noite de maio –
uma espera
acesa
durando uma estrela

Fabiano Calixto

 

A palavra tece pela cidade
sua ébria caminhada
Sóbrios são os sonhos
nos quais tropeço meus passos
A noite, é imensa frase
de amor a escrever-se
nos becos e bocas
do meu coração cheio de luas.

Jurema Barreto de Souza

 

palavrando

a poesia cria um clima, mina
ora por baixo, ora por cima
o que vem por dentro, despacho
ao certo quase não sei, tento
rascunho, rimo, rasuro, invento
o que vem por sério, relaxo
o que a voz não sabe, cala
o silêncio em si dá uma pala
lavra o rumo da meta, certeira
de sol a solo, soluções
gestos, ritmos, pulsações
o que não se vive, dá bandeira

Zhô Bertholini

 

cisma

deixar fazer
que sonhar é infinito
e o desejo se desdobra
em atos e aquarelas
que o querer é fugaz
é sede de mais sede
arder

deixar passar
que o dia cobre o dia
que recobre o outro
que o modelo é o avesso do erro
e viver é pouco mais
que a ilusão.

Rosana Chrispim

 

SONETO SINTÉTICO

De como a poesia é definida
depende da trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?
Segundo Rilke, a lira não duvida.
mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.
Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um Dom.
Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.

Glauco Mattoso

 

teu corpo sempre
se encena:
esplende
madrepérola
pungente

compasso e pausa
a um passo
da dança:
esquivo avanço
que quase se lança

impulso de asa
espuma de vento
anave em curso –
madrepélago

volutas de músculos
anéis de serpentes
cardumes em fuga
pálpebra de tempo

teu jogo e jugo
conjugo
contemplo
teu dom e domínio
concha de silêncio
teu corpofluente
meus olhos bebendo

Luiz Roberto Guedes

 

Celebração do Vinho

Corpus

A memória da terra codifica
e aduz à escritura dos milênios
as famílias que o tempo semeou
e forma deu e vida permanente
E assim das cepas nominadas é
o paladar nativo que nutriu
a pássaro e a homem igualmente
segundo a terra aconselhou e hauriu
do sol vertido sobre o fruto exato
E das famílias foram contempladas
aquelas de sementes mais tenazes
que se puseram embriões ousados
sobrevivendo aos climas mais severos
até que cepa e homem começassem
a se agregar em doce epifania

Anima

A se agregar em doce epifania
o homem conheceu novo prazer
antes cativo à fruição dos deuses
que Baco urdiu em vales e penínsulas
das quais a itálica elegeu seu reino
E revelada foi a alma do fruto
que se ofertou aos homem em segredo
no interior do mosto dessangrado
E recolhida foi em substância
posta em clausura nos tonés escuros
para vestir a cor de seu mistério
do que se fez em vinho a alma do fruto
Então libou o homem junto aos deuses
pois ao prazer lhe houveram destinado

Vox

Pois ao prazer lhe houveram destinado
falou o homem pela voz do vinho
esconsa voz de puras emoções
E ao vinho branco conheceu primeiro
depois ao tinto e com discernimento
verdes vinhedos e maduras vinhas
Da voz das cepas conheceu famílias
e nominou-as para que soubessem
de sua prole idade e procedência
nos protocolos lidos pelo tempo
E viu gerar-se o vinho no silêncio
até chegar a vez das oferendas
na culminância de seus hemisférios
pois a vindima fala do bom vinho.

Ablatio

Pois a vindima fala do bom vinho
eleito foi a celebrar as ceias
e fez-se sangue do martírio e símbolo
do amor cristão aos povos ofertado
Mas dividiu-se o homem pela fé
e onde Khayyan brindara outrora à vida
as vinhas anciãs foram ceifadas
enquanto ao Novo Mundo advieram
as cepas que a Europa humanizaram
e o imigrante em terra intumesceu
em lavra peregrina e paciente
E as vinhas nessas terras situaram
entre as sulinas sedes da aventura
onde multiplicaram pão e vinho

Libatio

Onde multiplicaram pão e vinho
que a todos distribuam suas dádivas
sagrando a uberdade da mãe terra
Que venha sempre farto o vinho à mesa
e se divida em vários sendo uno
pois é igualitário o que comum
Brindemos ao que é fértil e geral
em generosas fontes nos jardins
Que se devolva ao homem como dança


e como canto de celebração
que a emoção converte em poesia
Brindemos afinal à própria vida
que o vinho ensina o homem a fruir
com o prazer do amor e da alegria

Sérgio Campos



Matéria publicada em 01/12/2000   - Edição Número 16