Editorial
O Tempo, nós o dividimos para nos orientarmos ou para que ele nos aprisionasse?
Pouco importa, são doze meses que A
Cigarra partilha poemas e poetas e isso rompe todos os calendários. A Poesia consegue
falar de tudo e de todos, eternizar amigos presentes e os que já estão em outro tempo,
outra dimensão. Fazer poemas é mais do que fazer literatura, é buscar a palavra que se
tornará chave para outros tempos.
Mistério
O tempo presente
tem suas rugas
o agora é um fotograma
o que há sobre a terra
passa
menos a poesia
que desliza como a chuva
e molha a existência
dos que ousam
olhar para a fantasia.
Almandrade
Partitura com Lua
Notação de pássaros
nos fios da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.
Cadências de alma sobressaltam um público
desatento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros
presos numa sala). Mas por acaso em pura sintonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde dos fios da rua.
Ei-la tão plena no dia findo azulado-
a lua soberana e alta
do sono deste outono.
Dora Ferreira da Silva
Arquitextura
Po
lindo o quartzo
o ourives pós-tudo
pre
tende a eternidade das luzes
ou, simplesmente,
forjando o diamante,
o fogo-fato que o verso esteriliza.
Fulgor hialino lapidando a pedra.
Lavor preciso, discreto e descrito.
Lavoura concisa: tinta e papel!
Imagem em cristal líquido.
Corte, límpida costura,
tecelagem do equilíbrio.
Mauro Veras
Dito e feito
p/ Julio Barroso
a palavra
se fala
e se cala
o poeta
diz
e se solta
Zhô Bertholini
Os poetas
Os poetas
como os profetas
têm o coração frio
e são
incapazes do amor.
Por isso Ezra Pound, Fernando Pessoa, Cristo,
Vincent Van Gogh os poetas
elucubram as ficções
e os amores coletivos
se intrometem nas revoluções
e falam demais por isso
têm coração frio
para suportar as pessoas
e as suas aflições de abismo,
o sofrimento e a morte,
a matéria-prima
dos devaneios e truques semânticos
com que disfarçam
a frieza e o sem fim
das paixões que os atormentam
como aos profetas.
Álvaro Pacheco
O Tempo
Cio de papoulas
gerando novo conceito de Tempo
em minha carne
vasta
vastíssima
como um suspiro
R. Roldan-Roldan
Evocação
Evocar os deuses noctívagos
alados viageiros
que percorrem paralelos
a rua de nossa solidão.
Evocar os deuses perdidos
nos olhos alados
do trajeto trajado
de descrença e medo.
Balançar nas mãos, as correntes
e nos punhos chocar as algemas
tirar do ferro os gemidos
quebrantar o som contínuo
dos passos arrastados e rítmicos.
E rumo ao céu e inferno
da consciência sombria
encefálica massa falida
descansar no estio tardio.
Evocar os deuses do perdão
e forjar no palco da alma
uma lágrima de piedade falsa
e pendurá-la numa oração.
Francis de Oliveira
A Palavra
Na palavra deposito
o meu efêmero.
Tudo que é mortal eu
introduzo na palavra:
singradura dos séculos.
A palavra vence a
morte: a palavra.
EPÍTOME:
Teogonia, teogonia,
eu quero
vossos deuses
nos verbos da
minha LUZ.
Gabriel Nascente
Natureza Clandestina
Enquanto a Terra espreguiça
macia
menstrua incolor a semente proibida.
Resta ainda esta sombra
Revolvendo os cascalhos da esperança.
Pulsando, geme o rio placentário
no útero infinito de cada flor
no riso dor de cada animal
em gestação clandestina.
Cada pássaro e abelha resistem
à mão atômica de dez dedos,
maculados raios azuis da extinção.
Há de sobreviver, mesmo disforme
e quase translúcido, o óvulo
revolucionário da salvação.
Oh! Expectro abençoado em
maturação,
acalenta a esperança de uma flor
em berço esplêndido nascer
do silêncio das concessões.
Jurema Barreto de Souza
Visão
As bocas caladas
perderam o ritmo das palavras.
A canga no pescoço
tirou a visão do belo.
A decência se prostituiu.
Os valores se inverteram.
Ninguém mais sabe
qual o real
qual o falso
e assim vai
em busca de soluções
quem sabe?
Tônia Ferr
Matéria publicada em 01/09/2000
- Edição Número 13
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