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Editorial

Olá Amigo(a): Convido você para dar uma olhadinha nas fotos do nosso Orkut (Jurema & Zhô – Revista A Cigarra). Dê uma passadinha no www.revistacigarra.blogspot.com .Estamos também no http://www.facebook.com/JUREMABARRETODESOUZA
http://www.twitter.com/acigarra, onde colocaremos fotos de eventos realizados.

Entrevista : “Canal TvJanelas - Os Cigarristas: Um entrevistador está parado no tempo por não saber o que fazer diante de tanta tragédia na sociedade.<br>Intercalado à sua imagem, assistimos a opinião da poeta Jurema Barreto e do poeta Zhô Bertholini sobre como realizam seus trabalhos e a influência da cultura da sua cidade em seus poemas.”
http://www.youtube.com/watch?v=WoPi8P4DozU. Abraços e poesia sempre. Jurema Barreto de Souza

 

 

Perda (delicadeza)

Deve ser a den sa insinuação de tua ausência que me tateia neste inverno de céu limpíssimo. Como eu estivesse numa interminável cena de chuva e, olhar baixo, tentasse desesperadamente descobrir no fundo dos bolsos desta velha calça de veludo (sob um dilúvio) o toque de tuas mãos. Com desespero e o pé direito tento desenhar uma pequena cordilheira com as lágrimas que se misturam, sobre os azulejos brancos, à poeira desta casa. E se eu colocar o número três à frente do quatro, as coisas mudam, pai? Curioso que, estriada por lágrimas, esta camisa, que era tua, parece querer comunicar algo à altura do coração. Dormes, ainda menino, abraçado a imensas orquídeas – cujas pétalas tento, em vão, tocar por entre o módulo de azuis maciços desta noite. Uma cidade devastada, outra morta. Uma a dor da outra. Toda a forma de nitidez retirou-se, deixando em nós a tortura de pensar sob a lama suja do não ter estado lá. Escavo a caixa torácica na tentativa de descobrir onde está guardada a escadaria de lajotas vermelhas, o sapo de pano, a tempestade que entrou pela janela e inundou a sala. Pegue esse abraço aqui e se cuide, é na noite escura que tudo se torna ainda mais amargo. Quando ateei fogo à casa, não percebi a parábola que estava criando para tentar domar meus medos. Levanto-me, caminho de um lado a outro. São livros, discos, copos vazios, tênis jogados, uma cortina encardida. É... como nos desenhos animados, você sempre aparecia para salvar o dia. Quando eu não quis mais ser feliz, entendeste perfeitamente. As declarações de amor são silenciosas e é dessa maneira que nos devolvem ao útero de nossa irremediável catástrofe. É que as declarações de amor moram com as prímulas, bem no início da primavera. Tornamos-nos o coração morto de uma galáxia perdida dentro de uma bola de sabão. E, perplexos, notamos que não há remédio. Jamais haverá. Vá lá, filho, faça as coisas que devem ser feitas. Mas não se esqueça de algumas outras coisas que você já sabe muito bem, não é mesmo? Estamos doendo num jardim aleijado, meu pai. Há uma montanha ao norte, um repuxo de céu. E há um balcão, garrafas e uma cafeteira em algum lugar. Sinto-me cada vez mais longe de casa como um aroma que se perde em si mesmo. Nada aconteceu, meu pai. And I don’t fucking care! Com este sorriso tímido, sempre de luto, na beirada desse crepúsculo recortado pela janela deste vagão, miro um livro aberto e outro fechado, ou uma xícara de café ornada com dedos brancos e olhos baixos sob um chapéu coco e uma cadeira vazia à frente. É uma natureza desolada, inescapável pesadelo. Você não tem muita escolha, filho. Você retalha ou não suas virtudes, suas vítimas. É que de repente todas as saudades foram criadas de uma só vez. Impossível dizer adeus do perto desse distante. Há uma pedra que guardamos conosco, no interstício entre a lua e nossos pulmões. Pedra que pavimenta o caminho que não é música, que não é poro, não é papel, que não é. Matéria de insônia, apenas. Saudade, velho, saudade. É nesta imaginária alameda de tílias que passeio meu corpo de filho prendado na espera. Alvejado, dia após dia, vejo, ao contemplar o céu da memória, que não há cura. É que a saudade brinca fora da morte, como as estrelas.

Fabiano Calixto

 

 

 

AMARRE-SE À VIDA

Encontre as razões
para viver, não
as outras, de morrer.

Aquelas são muitas;
estas são poucas
e, pior, se consumadas
a mais nada
se pode recorrer.

Se não as tiver
na conta do querer,
invente outra sorte,
uma outra morte
que não seja
a morte de morrer.

Dê tempo ao tempo
e, dentro dele,
como num jogo
de espelhos, deixe-se
perder, perder.

Alguma coisa de você
voltará, horas depois,
a achará as out
ras
até compor um novo
desejo de si mesmo.

E as razões de viver,
então, tecerão
à sua frente
um rosto, um lugar,
um sonho.

Alcides Buss

 

 

 

FEMENINAS

Vontade de criar filho.Tudo fêmea.
Muitas fêmeas soltas de mim de avental.
Vontade de largar sapato alto
a teoria meia fina e carreira
para ser toda eu criadeira.
Meu quintal minhas crias
um varal cheio de calcinhas.
Um baú de anáguas engomadas
penteadeiras e pulseirinhas. Casa de meninas.
Nossa casa femenina com rendinhas no telhado
guardará franjas e sianinhas
uma cadela no portão . Tudo fêmea,
Bordados de rococó e margaridas rosinhas
pra enfeitar minhas crias .
Minhas crias sem pai nem avô
Terão nome de Maria
Maria Clara da Graça da Lua
Maria do Parto Sem Dor Maria Alegria
Maria Joana. Mariama.
Nossa casa violeta-carmim
toda aberta a todos os meninos
que se quiserem meninos.
Eles chegarão de início devagarinho
tomar chá de hortelã achar graça das xicrinhas...
Muitos fêmeos em nosso sofá de estrelinhas.
Vontade de criar filho. Tudo fêmea
de não levar porrada
nem medos pra casa
tudo fêmea de trocar respeito
sem vergonhas de usar laço .
Vontade de parir fêmea briguenta
sem remendo na costela
e soltar bando delas por Niterói Rio de Janeiro
andorinhas pra criação de companheiros.
Vontade de ser eu parideira
me arreganhar por inteiro na lua cheia
brotar fêmeas sonhadeiras
filhas naturais de poemas livres-comigo
arrebentando meu sonho meio corpete.

Beatriz Escorcio Chacon

 

 

 

AGORA

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te –pai– da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
Os teus. Eu contigo em degredo.
Difícil tomar a face desse segredo cada vez mias longe
E partir e também ficar, embora encontrada a chave da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
– eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhando pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.

Dora Ferreira da Silva

 

 

(POEMAS SECRETOS I , II e III)

I
Que se distraiam teus pés
Em mil passeios .
E tuas mãos despenteiem águas
E tranças de heras .
Mas teus olhos , não .
Teus olhos estão
Sigilados em meus tesouros .

II
O segredo voa
Nas volutas
Do hálito do amado .
Estou presa
Da cadeia de seus lábios .
Mas ainda que se abrissem
Para dizer : “És livre”,
Escolheria ser triturada
Entre seus dentes.

III
Feito de madeiras nobres,
Recende a canela a incenso.
Sua cabeleira de cobre ,
Elmo de comandante ,
Cavaleiro andante ,
Errante guerreiro
Lacrado
Em secretas fontes .

Flávia Savary

 

 

CORPO DE MULHER

alvos ramos de algas marinhas
rumores de alucinado cardume
pássaro e peixe em vôo único
e música de vastíssimo oceano
de um mergulho teu corpo age
sua natureza de sal e esponja
gravita sua substância de coral
na ciência submersa de meu corpo
e toda a sua revolta matéria
se acumula na carne e rebenta
em delírio de espuma e maresia
eis o meu fôlego te habitando
cumprindo sua viagem de ondas
sopra o vento em nuvens de areia
e escreve orgasmo na pele do mar
II
corpo de mulher orvalho e mergulho
tua chama engendra sol e continente
abriga orgasmo ventania colisão
e toda a substância que nos aquece
vem de tua fosforescente matéria
de tua severa sugestão de incêndio .

Floriano Martins

 

 

(ROMANCEIRO ATUALIZADO DE GRANADA)

Nas grutas de Sacromonte
já não há cigano algum
Das muralhas de Albaicin
A sorte não me chegou

A tumba de Joana a louca
não fui ver na Catedral
a Alhambra e o Generalife
tem algo de Disneyworld
Os guias contam estórias
sem qualquer convicção
e os turistas fazem cooper
sobre as ruínas do Islam
As grutas de Sacromonte
são discotecas de rock
e em Granada à meia-noite
vejo um filme de terror
Não vi a tumba de Lorca
não vi a tumba de Joana:
prefiro trazê-los vivos
fantasia na garganta

Lucila Nogueira

 

 

 

O exorcismo

Fiquei assim
possessa do teu amor:
mal que me acometeu
Sinto teus olhos de gato
brilhando na escuridão
do submundo do meu medo
de onde há de nascer
por ti outra canção.
O feitiço deste pelo negro,
que é tua sombra
roçando a escadaria

do meu sótão abandonado,
queima-me em mil fogueiras

sem que jamais do teu amor

eu seja liberta ou exorcizada.

Jurema Barreto de Souza



Matéria publicada em 01/02/2010   - Edição Número 126